sábado, 28 de novembro de 2009

VIVA O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA!

Consciência Negra, a celebração de tudo que o negro conseguiu depois dos terríveis quatro séculos de escravidão e exploração. Agora a igualdade reina e a intolerância jaz no passado, nosso presidente Orlando Silva Júnior faz um excelente trabalho, e nas telinhas, Lázaro Ramos e Taís Araújo protagonizam a nova novela de Gilberto Braga no horário nobre. Nas telonas, Alexandre Rodrigues fatura nosso primeiro Oscar com sua incrível atuação no filme sobre Zumbi dos Palmares. Com o ensino público em situação digna, não há mais cotas e nem a humilhação de ter que apresentar exames de sangue para provar (ainda que visível a olho nu) que somos de fato negros, para assim ter a chance de cursar o ensino superior. Conseguimos mais representantes nos governos estaduais, municipais e também no senado, nas câmaras de deputados e vereadores, já são 42,3% das cadeiras políticas do Brasil. Os casais interraciais já não estarrecem a população, e seus filhos não são tratados com indiferença, são igualmente educados com carinho por professores preparados e bem remunerados. Temos proprietários e presidentes de empresas, além de gerentes, professores, apresentadores de TV, pintores, tenistas e pilotos de fórmula 1. Com a melhoria nas condições de vida, quase não há motivos para assaltos e assassinatos, e nós, antes erroneamente estigmatizados como bandidos por natureza,provamos que a maldade não tem cor. Os termos, piadas e jargões racistas não são ouvidos, e muito menos lembrados. O Brasil se tornou o país perfeito para se viver. Viva o Dia da Consciência Negra!
Na verdade, com toda essa utopia descrita, não se defende um Brasil bipolar com dois poderes étnicos, há apenas uma amostra de como é difícil imaginar a maioria dessas situações. O único sentimento presente nesse texto é o da esperança de que algum dia teremos, verdadeiramente, motivos para comemorar não só a consciência do ser Negro, mas também a do ser Humano.

O CLAMOR DO MENINO EDSON

Na noite do dia 19 de novembro 1969, Pelé correu para a bola, bateu, no canto, e Andrada se adiantou, pulou, se esticou, mas não teve jeito. Naquele momento, o maior jogador de futebol de todos os tempos convertia seu milésimo gol, sentava no trono e esperava a coroação que ocorreria em pouco menos de um ano, na copa de 70, no México. Na euforia do gol e rodeado por centenas de pessoas, entre repórteres e fãs que haviam invadido o campo, Pelé disse: “O povo brasileiro não pode esquecer nossas crianças...”, declamou esse nobre discurso em meio à emoção de seu feito histórico. Alguns o chamaram de demagogo, que suas palavras eram decoradas como um discurso de miss e que tinha um teor politizado para incomodar o regime ditatorial, que estava em seu auge. Porém, o que estaria pensando naquele exato momento nosso Rei? Poderia estar lembrando-se da infância difícil, da pobreza e do preconceito. Sabia muito bem que se não fosse pelo seu dom transcendental, continuaria na ríspida luta para se manter vivo, na dignidade de um trabalho duro e mal remunerado, onde jamais conheceria o que conheceu, chegaria aonde chegou, faria o que fez. Por isso, aquela frase pode ter vindo do menino Edson, clamando pelas outras crianças, para que não dependessem de um dom para terem o direito a uma vida melhor, pois apesar de monstruoso com a bola nos pés, se tratava de um ser humano com compaixão correndo nas veias. Foi um lindo grito de igualdade, onde apontava que o futuro do país dependia da educação e zelo às nossas crianças, que infelizmente, até hoje, parece não ter sido ouvido.