terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Menos o Paulo que estava no mundo real


De repente me pego pensando o porquê de nossa geração ser tão estúpida. Imagino os estudantes que enfrentavam o poder da ditadura nos anos 70 e 80. E quando digo minha geração, é uma alusão mais ampla das pessoas com menos de 30, já institucionalizadas pelas ferramentas da cibercultura. Hoje crianças com 12, 13 anos não sabem, e tem raiva de quem sabe, brincar de pique-esconde, pega-pega, preferem fingir a idade e se atracar em lábios alheios pelas ruas. Nem tem a consciência de que pai e mãe não são avatares do The Sims, onde podem apenas ignorar e maltratar, ou delatar se assim achar de direito.
Os adolescentes em seu auge, aqueles com os 15/16 anos, são seres bizarros que conversam um idioma próprio e fazem questão de não se misturar com pessoas que não correspondem às suas peculiaridades. Ouvir um grupinho deles conversando é muito pior do que ouvir asnos em coito. Falam barbaridades, inventam absurdos, juram inverdades, pintam o diabo com o único intuito de se dar bem, claro, com o sexo oposto, ou semelhante, tanto faz, para trocar saliva e iniciarem a vida sexual. De útil mesmo, nada.
Os pós-adolescentes, dos 18 a até quando a maturidade resolver aflorar, vivem de ilusões e pseudo-revoluções. Sitiam uma Universidade para protestar contra a ação abusiva do poder por parte dos altos escalões nacionais. Ora bolas, só querem fumar, cheirar ou fazer lá o quê com drogas sem serem incomodados. Pois são filhos do fulano, neto do sicrano, intimidam as autoridades com o já batido "sabe de quem sou filho". Uma vergonha falar isso. A frase só prova o quanto esses são inferiores às gerações passadas. Os pais ou avós trabalharam para os filhinhos brincarem de revolução.
Porém, cheguei a pensar que tudo isso não passa de lamúrias de um antissocial, que por falta de condição, e por opção mesmo, fica à margem do controle cerebral imposto pela imposto pela nova sociedade informatizada. Mas, infelizmente um fato veio a confirmar tudo o que eu falei. Zapeando pelos canais da decadente TV aberta vi uma jovem, assessorada pelo pai que falava sobre ela escolher ser o que quiser. Depois, imagens de centenas de pessoas cercando a jovem no aeroporto, escoltada por policiais. Quem era? Uma jovem atriz que fazia novela das oito, pensei, ainda que também fosse exagerado.
Quando soube do motivo do alvoroço fiquei pasmo. Não conseguia acreditar que toda a histeria se dava por uma simples frase, dita em um comercial de uma TV nordestina. Depois imagens de personalidades de tudo quanto é meio parafraseando o ator do comercial, que por sinal é o pai da moça. Fiquei sem ação. A situação me fez considerar a possibilidade de os BBBs serem mesmo alguma coisa. Uma garota que não fez nada. Como assim? Cogitando ser atriz e apresentadora por uma frase. O que aconteceria se o Mahatma Ghandi, se vivo óbvio, resolvesse desembarcar em solo brasileiro? Será que as redes sociais se manifestariam? Poderia ser rei, já que ele sim fez algo de útil à civilização.
Sim, nossa geração tem miolo mole. A situação atual me faz invejar os torturados da época da ditadura, os exilados, os guerrilheiros. Tá bom, não preciso ser tão exagerado. Invejo simplesmente os jovens que naquela época desejavam ser reconhecidos em alguma profissão, ou em algum dom artístico. Que estudavam, e iam às noites boêmias viver uma rede social verdadeira. Invejo o personagem de Allen em Meia-Noite em Paris, que podia voltar ao tempo e conhecer revolucionários de verdade, pessoas que por seus ideais valiam a pena serem cultuados.
Pois bem, sei que tô pregando no deserto. Sou sempre motivo de chacota. Sei que quando a discussão sobre a estupidez do episódio da menina que estava no Canadá for colocado em pauta, serei tachado de careta e retrógrado. Sei que todo mundo vai dizer que curtiu o assunto. Claro, menos eu que estava no mundo real. Fazer o quê?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Entrevista com o mendigo


Ele chegou e se sentou, pediu permissão para falar como fossemos eu e minha noiva autoridades daquele local. Logo que começou a falar se mostrou muito irritado com o pedinte que havia passado por nós segundos antes. “Vagabundo”, dizia em tom de revolta, reforçando com negativas com a cabeça. Puxou assunto. Começou dizendo que um homem precisa ter vergonha na cara, tinha que trabalhar. Morava na rua, mas trabalhava, não precisava pedir na da para os outros. Para provar abriu sua crteira, mostrou entre papeis amassados e notas sujas, um cartão do bolsa família. “Tenho meu dinheiro, vê se aquele vagabundo tem”. Afirmou que ajudava seu amigo, que se encontrava desmaiado no banco ao lado, que era doente, e “às vezes dá uns ataques”. Foi sincero em admitir que havia perdido tudo por causa da cachaça, pediu novamente permissão, desta vez para acender um cigarro. Enquanto tragava, falou de sua filha, e de como a degradação de sua vida através do álcool o fez morador de rua. Pediu licença, sorrindo pegou a garrafinha de pinga que estava dentro de uma sacola preta, bebeu, “vão chapar?”, sob nossas negativas voltou e continuou. Chorou ao lembrar que não havia perdido a fé, eram lágrimas sinceras, “rezo pela minha filha, meu amigo, por nós todos”, e por alguns instantes se calou. Perguntei se já tinha pensado em sair das ruas, e a resposta foi um sim indeciso. Minha noiva falou-lhe sobre o A.A, e novamente a sinceridade falou por ele, “o que adianta ir lá, se depois volto e bebo. Só melhora quem quer”. Quando perguntei sobre como era tratado em repartições públicas, foi enfático ao elogiar todos, desde a câmara ao posto de saúde. De repente mudou de assunto. Contou de seu problema de saúde, um buraco horrível em suas costas, que fez questão de nos mostrar, que dizia ser oriundo de uma facada mal curada. Iria ao Ascomcer fazer um enxerto. Novamente mudou a direção do papo, falou dos problemas da madrugada e contou casos curiosos. Minha noiva perguntou se tinha muitos perigos, disse “que não tenho medo de ninguém”. Falei sobre o problemas dos viciados, ele respondeu “esses malandros tem medo de mim”, e contou mais de suas aventuras pela madrugada, de como ajudou a polícia a prender um traficante, da mulher que faz ele ter que dormir no parque, “ela fica fazendo escândalo lá na Mister Moore, aí os moradores chamam a polícia. Para não ter que dar uma nela, venho dormir aqui.” As pessoas passavam e olhavam com aquele um ar de espanto, e nós nem nos importávamos. Minha noiva colocou todo seu dote como psicóloga para tentar arrancar o máximo que podia, eu agia da forma como tenho aprendido na faculdade. Fizemos uma pequena entrevista, muito interessante pelo lado humanístico dos moradores de rua. Uma chance de poder enxergar fantasmas da sociedade, e mesmo não saindo em um grande jornal, foi um aprendizado inestimável. Mesmo a contragosto tivemos de ir embora, pois estava chegando aquele momento em que “as ruas de Juiz de Fora à noite não são boas para ficar andando”, finalizou.

Em homenagem ao Sr. Walmir.