domingo, 25 de setembro de 2016

A Lenda de um rapaz Incomum


Amava cinema. Uma dentre as poucas boas coisas que amava. Odiava o Zorra Total. Uma dentre as inúmeras coisas boas e ruins que odiava. Sim, é complexo, como sua trajetória, seu comportamento, capaz de sair na porrada com um colega e beber com ele horas ou minutos depois. Sempre foi assim, indomável, sem meias palavras, sem regras de etiqueta (pobres professoras) que o fizessem comum. Era incomum. Na capacidade de ser espontâneo, de jogar futebol, de ser incoerente. Se dizia cagar para o mundo, mas enxergava alguma beleza nele que fazia com escrevesse poesias em seu caderno de matemática, quase sem anotações, óbvio. Sim amigos, o mesmo rapaz que atravessava “corredor polonês” na escola, que peitava, sozinho, uma turma de valentões em uma balada, era capaz de fazer poesias, de cantarolar Cazuza, ler Dostoievski ou divagar sobre o universo e sua existência. Talvez este seja o ponto que o tornava um paradoxo humano. Uma pessoa difícil de se ler, de se entender. Até mesmo para os mais amigos. Existia ali uma força que não compreendíamos, e acredito que nem ele mesmo. Algo que criava uma inércia emocional que reservava 10% de seu eu para si, que consumia sua vontade de ir atrás do que sonhava. Deixava distante seu (UM) SONHO DE LIBERDADE (Ah, seu filme predileto). Algo que não conseguimos afastar dos outros 90% de sua persona. Um fatídico dia veio. Nos restou a saudade e a tarefa de propagar sua mitologia. A lenda de um rapaz incomum, que sabia ser rude e estúpido na mesma intensidade que sabia ser sensível e amigável. De um rapaz que era paradoxal demais para ser daqui. 


sábado, 17 de setembro de 2016

A Cachorra e sua Menina




Não é amizade. É amor, incondicional. Se fitam como se conhecessem há séculos, de outras vidas. Talvez seja isso. O que sentem não dá para explicar, apenas observar, e observando somos contagiados por uma energia benfazeja única. Seja no passeio pelas calçadas da cidade pacata, seja no cochilo pós-almoço de sábado, a ligação entre elas é como um conto de fadas, mas que partiu do “felizes para sempre” logo no início. Ainda que se desentendam, isso é tão breve que não se diferencia de uma das muitas brincadeiras. Aos outros, basta mesmo é observar. Não fazem questão de que gostem delas ou que aprovem sua relação. Pois só elas sabem o bem que se fazem, o carinho que se proporcionam, o alento em um coração triste ou o complemento de um momento de felicidade. É uma relação de amor em seu mais puro estado, daqueles que fazem uma deslocar pela madrugada para ver a outra, ou que a outra se plante atrás de uma porta ate que a uma retorne. Assim é, e assim será, enquanto o destino inerente a todo ser vivo não faça valer sua inevitabilidade. Será sempre a cachorra e sua menina. Amor de verdade.

domingo, 8 de maio de 2016

Um pouco sobre minha Mãe

Neuza Maria da Silva tem uma vida boa hoje, compra o que quer, come o quer, fala o que quer. Mas, se contar tudo que passou para chegar a sua pacata vida no vilarejo de Manejo, em Lima Duarte, talvez dê um livro. Mas, vou tentar resumir um pouco segundo seus próprios relatos. 

Neuza sempre foi trabalhadora, e aos 9 anos já trabalhava em casa de família, na casa de um alemão. Lá viveu algumas experiência que a ajudariam a se tornar um futura mulher forte e aguerrida. A primeira delas foi um acidente de carro, do qual até hoje carrega uma cicatriz, que, toda vez que a olho ou acaricio sinto um certo temor por ter sido impedido de ser seu filho pela imprudência de um motorista bêbado. Dormia em uma cama com suas duas irmãs e uma adorável porquinha.

Na alta juventude, foi morar no Manejo com sua irmã mais velha, bem mais velha aliás, a qual considerava como uma mãe, já que esta a deixou ainda em sua tenra idade. Nessa época conheceu o João, sujeito malandro metido em uma calça branca e de papo leve. Casaram-se algum tempo depois e nasceu sua menina, a Flávia, que seria sua companheira de sempre. Nessa época moravam em Benfica, em Juiz de Fora, o "melhor lugar onde morou", como gosta de dizer, sempre que se indispõe com algum vizinho. Lá também nasceu seu filho do meio, o que mais deu trabalho, porém o mais adorado (e isso não é papo de ciumento, toda mãe tem um) dos três.

Depois do nascimento do terceiro filho, que vos escreve, sua vida entrou em um momento difícil, reflexo da crise econômica brasileira do final da década de 80 e início da década de 90. Aí foi o momento de ser a mulher guerreira que nasceu para ser. Neuza criou seus filhos praticamente sozinha, já que seu marido trabalhava fora e só comparecia dois finais de semana por mês. Mesmo que não tenha sido um pai ausente e que tenha sua parcela na criação dos filhos, a mãe foi a que enfrentou todas as barras que o amadurecimento de adolescentes pode proporcionar. 

Enfrentou cafezais, sendo transportada em caminhões sem segurança alguma. Encarou a geada da manhã, o almoço frio, e as próprias limitações físicas, já que não era nenhuma garota à época. Tudo isso por sua vontade de dar a seus filhos alguma qualidade de vida, nem que fosse uma alimentação de qualidade. Às vezes, quando suas forças falhavam e meu pai ganhava muito pouco, se virava para nos dar o que comer, mesmo que isso fosse apenas macarrão com pimentão. Em meio toda as dificuldades da vida, sempre acompanhei com muita angústia as noites em que ela passava em claro, fumando seu cigarro de palha e rindo de devaneios que não a deixavam descansar. 

Entretanto, quando vieram os anos 2000, algumas coisas mudaram, e seu Ederzinho entrou para o quartel, engajou, se tornou cabo e mandou arrumar a casa, que aos poucos ruía. Menos uma preocupação em sua cabeça (já que ela tem muito medo de chuva, apesar de jurar de pés juntos que não). Em 2004 teve uma grande surpresa quando seu marido resolveu parar de beber. Afastado do trabalho devido a problemas cardíacos, ele se dedicava à casa e a ela, como a décadas não acontecia. Tudo ótimo? Ainda não.

Um ano mais tarde sofreu seu primeiro grande baque. João tombou, internado com uma suposta pneumonia, que um mês depois se confirmava um câncer de pulmão e uma semana depois jazia em seu túmulo no cemitério do Manejo. Neuza sofreu, entrou em depressão. Como superar a perda de um parceiro de uma vida? Aquilo não lhe parecia justo. Mas, ao invés de se entregar ela decidiu seguir em frente. Atirou um cigarro pela janela para nunca mais colocá-lo entre os dedos novamente. Recuperou a alegria, as brincadeiras bobas voltaram. Viu seus filhos se formarem, um se casar, e aos poucos irem tomando rumo.

Aí veio o segundo baque. Sua irmã mais velha, sua segunda mãe se foi. Perdeu o chão e o controle de sua glicose. Mas, absorveu a pancada, e rapidamente entendeu que a vida é assim, as pessoas vivem e morrem, isso é natural. Decidiu continuar vivendo, comendo bem, aproveitando sua vida e de vez enquanto se preocupando com os filhos, pois não seria mãe se não o fizesse. Reza, ri, assiste O Senhor dos Anéis dezenas de vezes. Faz brincadeiras bobas com sua companheira de sempre, a Flávia. E apesar de toda a saudade de seus entes e às vezes achar que o copo está meio vazio, vive uma vida feliz.

Ao olhar em seus olhos sinceros, talvez ninguém consiga imaginar que aquela mulher já enfrentou muita coisa, sofreu como poucas. Mas estranhamente não se vê o sofrimento guardado ali. Dona Neuza ensinou a mim e aos meus irmãos a não levar desaforo para casa, não pegar nada de ninguém, não desrespeitar os mais velhos, a não comer manga e beber leite, e principalmente que tudo o que o destino nos impõe pode ser dobrado e colocado de lado. Para mim será sempre minha heroína, a pessoa que formou meu caráter e que me disse uma vez que ninguém seria melhor do que se eu não aceitasse. Por isso eu a amo.

E  isso é apenas um pouco sobre minha mãe.

P.S.: Hoje, 08/05/16, depois de terminado este texto, Dona Neuza veio a perder mais uma de suas irmãs. Tia Graça, a qual não via a décadas, mas mantinha contato por telefone, faleceu vítima de um ataque cardíaco. Minha mãe sofreu,(era a que defendia ela das coças da minha avó) e sofrerá por alguns dias. Mas, tenho certeza que superará, e estará pronta para continuar sempre em frente, digno da guerreira que é.