Existe razão


Adilson abriu os olhos mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram, enquanto a Aline estudava em outro canto do Manejo como eles disseram. Tudo bem, não foi assim tão casual quanto o romance cantado pelo mítico Renato Russo e, pensando bem, não sei como foi. Mas imagino, posso imaginar, que os olhares se cruzaram sob o pretexto de um gosto em comum, o Legião, em que os legionários viúvos de seu ídolo cantavam à sua morte. E ele, o mesmo sorriso de canto de boca, o mesmo cavanhaque sem vergonha dando-lhe um charme a lá Casanova, dedos sagazes a soprar notas sedutoras ao ouvido da púbere. Que não era dessas romaticazinhas de caderneta. Esperta, se escondia por detrás de um véu de timidez, para embrulhar os pudicos, mas a gente sabia, ele sabia, a menina era atrevida, e na irresponsabilidade da adolescência namoraram um namorico. Destes que vão e voltam, beijos aqui e acolá, nada sério.

Mas o lance se tornou um encanto, de correntes firmes, que se elevavam ao shakespeariano a cada dedilhado do autodidata em seu violão, acompanhando sua voz ritmada, como se os próprios Dado e Bonfá criassem a melodia daquele amor singelo. Sim, já era amor. Todos nós, seus amigos, sabíamos que ali era um do outro, para com o outro. Invejávamos, sim, aquela boa (ou nem tanto) de querer gostar e ser gostado por outra pessoa como acontecia ali. Todavia não se podia imaginar o quão mais do que gostar representava o olho no olho, o lábio no lábio, o corpo no corpo entre os dois.  E quando sobre a colina o céu se apresentava anil, o passar dos anos tornava tudo mais sério, menos irresponsável, com grande chance que as convenções sociais se aproveitassem da imaturidade emocional do casal. Vilões? Eles mesmos. Ou não é de nossa responsabilidade tingir a folha em branco da nossa vida com a pena e a tinta que nos é dada? Enfim, a tormenta surgiu naquela colina, e os dias se tornaram cinzentos.

Ele teve de vê-la ir embora, para quilômetros de separação inexplicável, ao menos para nós, espectadores daquele drama de novela, das seis (sabemos que negros não protagonizam às nove, infelizmente), sem saber o que dizer, esperar, pensar. O tempo não cura o que não é doença. Amor não é. Cria apenas um círculo de saudade e esperança, pois quem acredita sempre alcança, e legionários acreditam nisso. Ele esperou, salpicou o cavanhaque de grisalho enquanto tentava esquecer o inesquecível em bares, farra, festas, cachaças. O violão cessou, ao menos aos nossos ouvidos, e o que víamos era apenas um arremedo de homem, definhando de dentro para dentro, sem as condolências dos olhares dos familiares, dos amigos, talvez, dele mesmo.

Ela, não sei muita coisa, estava a quilômetros, talvez satisfeita, provavelmente não. Da única vez que lhe troquei mais do que uma cordialidade costumeira, pude ver em seus olhos profundos o remorso, a solidão. Suas pupilas, outrora peroladas, se apresentavam foscas, sem a jovialidade que todo mundo tanto admirava. Tinha uma sensação de não estar na presença de minha amiga de tanto tempo, daquela mesma que se metia a ser mais amiga dos meninos que das meninas (sim, tinha as suas inseparáveis, claro) sem se importar com comentários débeis e provincianos, típicos de onde fomos criados. Ali, na minha frente, o que via era uma subtração melancólica de tudo o que havia sido, um espectro visivelmente necessitado de um corpo novo, o novo antigo.

Mas, eis que em um breve encontro, dez anos depois, soube. Por uns e outros, por eles. Estavam de volta, juntos, enfrentando os vilões que eles mesmo criaram. Corriam maratonas, escalavam serras, se curavam de vícios (ele né, fumante) e se completavam. Finalmente compartilhando a folha da qual a pena imprimiria a tinta que uniria suas histórias novamente. Pelos fatos e fotos agora vejo um nos braços do outro, como se a intersecção que lhe sorveram dez anos de seu amor nunca tivesse existido. Para eles tudo não passou de um equívoco do tempo, uma pegadinha sem-graça do destino, um sonho ruim, daqueles que se quer acordar e em agonia não se consegue. Estavam juntos novamente, sem “poréns” nem “entretantos”, apenas vivendo sua vida, que sua perseverança fez por merecer.


Se vão ser felizes para sempre? Não sei dizer. E quem sabe? Nem mesmo sei se não cairei duro antes que possam ler este texto piegas. A verdade é que, mesmo que o destino insista em se intrometer, separar seus corpos, olhos, mentes, o que existe ali não é uma efemeridade que será consumida, nem em um par de milênios. Se amarão para sempre, não importa o que aconteça. Renato Russo deveria lhes contar esta história, mas sobrou para mim. Qual a razão disso tudo? Não sei. E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? Quem irá dizer que não existe razão?



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