sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eu precisava dizer que Te amo


Bom, era aquele o momento. Não poderia passar. Cresci em uma comunidade provinciana, cá para nós, roça mesmo. Acostumei desde cedo às truculências de uma vida difícil, sempre batalhando para ter, comer ou fazer algo que preenchesse o mínimo possível de conforto físico ou intelectual. Não por culpa de minha família. Meu pai, João para meus familiares, Crioulo para os conhecidos, Pai para eu e meus irmãos. Aquele sujeito pacato, engraçado, cheio dos bordões famosos. Nunca deixou que nada nos faltasse e nem à sua mãe, que tanto amava. Sim, estava a lembrar disso naquela tarde ensolarada do dia dos pais de 2005, no Hospital João Felício. Tentava disfarça a terrível tristeza de vê-lo definhar, logo ele, que sempre foi um exemplo de vitalidade. Trabalhava a semana inteira como carpinteiro em obras e ainda lhe sobrava energia para uma capina, um conserto qualquer que nossa humilde casa necessitava, e sempre necessitava.

Com o passar do tempo eu e meu irmão encontrávamos tempo para ajudá-lo. Quando se afastou do trabalho devido a um problema de hipertensão, tive a oportunidade de conviver mais com ele, assistimos a quase todos os jogos da Copa-2002 juntos, até os péssimos. Silenciosamente ouvia meus comentários sobre os jogos, o que deu-lhe lenha pra afirmar para os amigos que eu seria um grande comentarista esportivo. Mas, naquele tempo juntos o vilão estava lá, o cigarro, persona non grata, porém, sempre estava lá. Naquele momento estávamos a esperar a enfermeira que o levaria para mais um exame, não sabia o que dizer, meu assunto já acabara a mais de dez minutos. Vez ou outra ia a um quarto próximo ver como andava o jogo do Flamengo, time pelo qual torceu fervorosamente e teve a incrível sorte de comemorar o título mundial junto com seu aniversário em 13 de dezembro de 81. Mas naquele perdia para o Goiás por 2 a 0. Derrota que parecia rondar aquele domingo dos pais.

Quando o médico lhe proibiu de beber, cumpriu a ordem a risca, ordem difícil, pois, apesar de não ser nenhum bebum, adorava “se alegrar” nas noites de sábado. Chegava alegre, brincava comigo, com meus irmãos e minha mãe. Agora havia parado. Já fazia um ano. Conseguiu uma boa pensão neste tempo afastado do trabalho. Tínhamos uma vida boa. Iria se aposentar e aí sim, poderia aproveitar a vida. Mas veio uma gripe, que virou pneumonia, que virou câncer. Ali deitado naquela cama fria, mais magro do que de costume, com aquele tubo que ajudava a respirar. Olhava para a janela, não sei o que pensava, talvez se arrependesse de alguma coisa. Não sei.

O que sabia era que o momento havia chegado. Em alguns instantes a enfermeira viria, eu teria de ir embora já que não poderia acompanhá-lo no exame e o horário de visitas acabara. A mulher entrou, ele sentou na cama, olhou-me com uma confiança de despedida, “Vou sair dessa”. Não disse nada, apenas o abracei. “Sim, vai sim.” Só o que consegui dizer. Naquela cadeira de rodas me olhou pela última vez, dei um passo para mais perto, passei a mão em seu rosto. Foi se embora. Foi a última vez que vi meu pai vivo. Carrego o fardo de não ter lhe dito “te amo”, não sei por que não disse. Naquela noite, ainda dia dos pais, ele se foi. Saiu daquela como havia me prometido. E, de certa forma, passado o luto pesado, foi o melhor que lhe aconteceu naquelas circunstâncias. Era um homem bom demais para sofrer daquela maneira.


E eu, continuei minha vida, sendo o melhor que ele me criou para ser, me formei jornalista e quem sabe um dia passe a comentarista como disse que eu seria? Mas ainda carrego um pouco de dor, que vez ou outra me incomoda. Eu precisava dizer que te amo. Mas se isso servir. TE AMO PAI. A Martha Medeiros escreveu certa vez que as pessoas só morrem de verdade quando a última pessoa que lembra delas morrem, e se for este meu destino, o de te manter vivo até o último instante de minha vida, assim será.

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