sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Crônicas da saudade: Tudo aquilo que não vivemos


Ah, como estou com saudade! Lembra daquele dia, em que o Flamengo ganhou do Vasco na final da Copa do Brasil? Até hoje morro de rir dos nossos vizinhos irritados com os foguetes de três tiros que insistiu em soltar depois da meia-noite. Só não foi mais louco que aquele dia do título brasileiro de 2009. Nossa, como a gente gritou na rua, como um bando de gente doido. Nossa, parece que foi ontem...

E o dia em que a Flávia concluiu o terceiro ano. Nossa, você quase chorou de tanto orgulho, já que sempre quis que ela terminasse os estudos, pois você adorava se gabar com todo mundo  que sua filha era a mais inteligente da comunidade. Lembro direitinho no dia em que ela nos mostrou as notas do ENEM. Primeiramente você não entendeu o que tudo aquilo significava, mas quando lhe disse que 100 pontos (!!!) em uma redação de nível nacional era um absurdo, correu para a venda comprar um frango pra janta. Comemos até ter de tomar bicarbonato depois.

Sem esquecer da formatura do Eder. Caramba, você não gostava de perder uma festa, e aquele dia então... colocou um terno azul-escuro, penteou o bigode e até conseguiu fazer a mãe ir. Sua cara de bobo vendo o filho se tornando o homem que o criou para ser, me marcou. Quando ele o homenageou na formatura, aí você não aguentou né. Chorou sim que eu vi, aliás, choraram, já que seu filho do meio desanda a chorar por qualquer coisa mesmo.

Ri demais no dia em conheceu a Bárbara e não acreditava que seu filho havia arrumado uma namorada tão bonita. Aliás, no dia em que noivamos roubou a noite com suas piadas e a conversa fiada de sempre. No dia do casamento parecia ansioso, como fosse você a casar. Eram só alguns papéis, mas se sentia em um grande evento. Ah, e no dia em que me formei jornalista? Foi pro boteco distribuir o “eu falei que ele ia ser jornalista” para seus amigos, o que sempre me encabulava, mas lhe deixava radiante.

Como me arranca um sorrisinho aquelas noites de domingo, em que você gostava de ver a Dona Neuza enfezada, ora reclamando do programa de TV, ora reclamando que estava passando mal. Às brigava até com juiz que havia “roubado” o Flamengo naquele dia. Soltava o seu irritante “num é possível” só para fazê-la franzir o cenho e praguejar algo que ninguém ouvia, já que suas gargalhadas abafavam.

Mas tiveram aqueles dias tristes, como quando perdeu sua mãe, minha avó. Sei o quanto a amava. Ninguém conseguia lhe dizer nada, apenas abraçá-lo. Seu irmão também se foi, assim como alguns diletos amigos. E o que dizer daquele dia em que seu melhor amigo, seu cachorrinho inseparável sumiu. Das buscas sem sucessos que fizemos por todos os lados. Todo este sofrimento só foi vencido pelo o amor que sempre estávamos dispostos a lhe ceder. Passamos por tudo juntos!


Bom pai, uma pena que isso não são lembranças reais, são apenas frutos de uma saudade imensa, do tamanho do amor que senti e sinto por você. Não tenho nenhum tipo de crença em deuses ou sequer sou ligado a alguma doutrina religiosa, mas, às vezes, me pego imaginando que isso não pode ser só isso, nossa existência não pode ser tão medíocre. Porém, vejo que este meu pensamento só é a necessidade de querer um dia te ver de novo, te falar tudo o que não falei, de fazer que a saudade de tudo que não pude viver contigo seja abranda por mais um abraço. Um dia, no meu dia de ir, espero que minhas convicções estejam erradas, e lá esteja você me esperando, sentado encolhido em um canto qualquer, com seu cachorrinho deitado a seus pés, você me olhando...

domingo, 9 de agosto de 2015

Crônicas da saudade: 19:44


Era uma quarta-feira. Cansado depois de mais uma noite de serviço no 10º Batalhão de Infantaria, precisava demais de descanso. A cabeça estava a mil. Naquele dia havia descoberto que meu pai estava com câncer e que um de seus pulmões já não funcionava mais. Lembro que meu irmão disse mais uma dezena de frases sobre o tratamento, mas não ouvi mais nada. Apenas equacionei algo que sempre pensei depois que esta doença (que dizem para não falar o nome) começou a matar mais que a Aids os famosos dos noticiários, que câncer + pobre = morte.

Ao ouvir a deliciosa melodia que marcava o final do expediente, coloquei uma mochila nas costas e fui para casa de meus amigos. A casa da Dorvalina e seus filhos sempre foi para mim uma segunda casa, onde sempre fui tratado com carinho e amizade, como parte da família mesmo. Pouco disse depois que cheguei. Ainda não tinha forças para dizer aquela notícia sem chorar. Não queria chorar, tinha de ser o forte, aquele que ampararia todos quando o momento, que depois da equação acreditei ser inevitável, chegasse. Apenas me deitei na cama debaixo do beliche e assistia a TV.

Às 19:18 meu telefone tocou. Era meu irmão me perguntando se já havia chegado ao HU para a visita noturna ao meu pai, que se iniciara Às 19 horas. Disse que não. Então me detonou, explicou que não poderia ir lá, não daria tempo de sair do serviço e chegar a tempo. Nossa mãe e nossa irmã também não iriam, pelo motivo que não lembro, e havia me dito tudo isso de manhã, no momento da notícia avassaladora. Mas obviamente não me lembrava.

Com um salto calcei meu tênis, peguei a mochila e sai. Lembro de ter dito tchau para algumas pessoas na sala, não me lembro quem eram e nem expliquei o motivo de tanta pressa. Corri até o fim da rua torcendo para que não caísse no vácuo dos horários de ônibus, quando não se passa nenhum coletivo sequer. Mas dei sorte. Um 539 passava naquele exato momento. Fora do ponto saltei em sua frente. O motorista meio contrariado parou. Sentei bufando e olhando desesperadamente para o relógio a cada parada nos pontos caminho a fora.

O ônibus parou. Nem lembro de ter atravessado a rua, mas de entrar no hospital. Perguntei pelo paciente e o quarto. A mulher da recepção estava indiferente ao telefone. Depois de alguns instantes me atendeu, me informou. Parei em frente ao quarto, respirei fundo, não queria chorar, nem parecer triste. Olhei a hora, 19:44. Entrei e vi meu pai na cama, de olhos fechados. Gelei. Mas, logo após abriu os olhos e me lançou um olhar de surpresa. “Achei que ninguém vinha”. Sorri e disse que atrasei por que confundi a hora. Naquela noite pouco conversamos, sabia que mais do que eu, ele estava despedaçado pela notícia. Quando a enfermeira informou o fim da vista, o abracei. Despedi e sai. Queria voltar e dizer tudo o que passei para estar ali às 19:44, e como sempre estaria em qualquer lugar que ele precisasse de mim.


Quando desci as escadas que ligam o HU à Avenida dos Andradas chorei. Como nunca chorei na vida, por tudo o que meu pai estaria sofrendo e tudo o que sofreria. Queria que aquilo acabasse logo, que não sofresse mais. E naquele domingo, dia dos pais, acabou. Mas prefiro pensar que o que se acabou aquele dia foi apenas seu sofrimento, injusto para alguém como ele. Um presente se imaginarmos o quão irreversível era tudo aquilo naquele momento. Mas meu pai sempre estará vivo, na memória daqueles que o ama, e será assim, quando a última dessas pessoas se for.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Crônicas da saudade: Aquele Jogo

Manejo e Vila São Geraldo é o que pode se comparar a Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Vasco ou um Gre-Nal no nosso modesto futebol amador. Pela proximidade das comunidades e o convívio cotidiano, uma vitória sobre o rival no campeonato inter-distrital de Lima Duarte era motivo de alegria e escárnio por algum tempo. Mas, aquele era diferente. Tinha algo a mais. Era exatamente sete dias após a morte de um de seus torcedores mais fervorosos, que se foi ocupando o cargo de vice-presidente. João Batista da Silva, o Criolo, acompanhava a equipe seja onde quer que fosse, ganhando ou perdendo. Por isso, vencer aquele clássico estava acima de qualquer outra coisa.

A equipe andava desmotivada, quase eliminada prematuramente na primeira fase. Mas, naquele jogo não haveria qualquer coisa que diminuísse o ânimo. O atacante, Eder, era filho de Criolo, e sempre foi ídolo de seu pai, e já se desmanchara em lágrimas no discurso dentro vestiário. Como eram todos amigos, “fecharam” com o rapaz para que não perdessem aquele jogo, não aquele. Mesmo com o calor escaldante, mesmo com um jogador a menos, mesmo com o time adversário melhor, aquela seria a “missa de sétimo dia” mais inesquecível de todas.

Começou o jogo, e como era de se esperar o time deles estava melhor. O goleiro, Robinho, fez um ou dois milagres, por que aquele dia não poderia perder. Afonsinho, com o joelho baleado lutou como nunca. Suas conhecidas botinadas deram lugar a um jogo limpo, pois não poderia correr o risco de ser expulso, não naquele jogo. Uma jogada pela direita, Abel, nosso saudoso amigo não foi fominha, não podia, não naquele jogo, cruzou com perfeição. Guida, amigo de Criolo cabeceou como se o ouvisse gritar “lá”, e lá, no ângulo a bola morreu. Era o gol, que não poderia faltar, não naquele jogo.


O time se desdobrou, lutou e transpirou como não se via a muito tempo por aquelas bandas. Quando o juiz finalmente apitou, foi como se o campeonato ali tivesse terminado, como se o titulo tivesse sido conquistado. O dever tivesse sido cumprido. Éder agachou no campo. Chorou um choro feliz. Foi abraçado com emoção por todos seus companheiros. Com respeito por todos seus adversários. Sim, era um jogo onde os adversários também eram amigos e que também se comoveram com a perda sofrida uma semana antes. 

Foi inesquecível, lindo, mais que um jogo, uma ode ao amor fraternal. Eder foi o último a ir para o vestiário. Por um instante olhou para arquibancada, pensou ter ouvido um “vai Éder” durante o jogo. Mas foi apenas a saudade. Ao menos o homenageou. Não perdeu o jogo. Não poderia perder. Não aquele jogo.

sábado, 1 de agosto de 2015

Crônicas da saudade: O adeus à terra encantada

Aquela sexta-feira foi diferente. Anormal para alguém que raras vezes passava mal. O ar lhe faltava e a gripe anunciada aos familiares estava mais forte do que pensava, aliás, jamais havia se sentido tão combalido. Filhos e esposa estavam assustados, devido nunca terem visto fraquejar frente a nada. A dor nas costas também o incomodava. A decisão foi difícil, porém inevitável.  Levantou-se da cama, começou a se trocar, se sentiu tonto, sentou-se. 

Dona Neuza entrou em uma roupa com tanta rapidez que nem ele percebeu quando a esposa o apressou para não perder o ônibus. Saíram pelos fundos, para evitar olhares curiosos. Dona Neuza sempre foi contra dar satisfações de sua vida para o outros. Não conseguiram fazer com que seu fiel cão de estimação ficasse para trás. Na caminhada da casa até o ponto do ônibus, que era curta, porém naquele momento lhe pareceu uma eternidade, se lembrou de grandes histórias que viveu em sua terra encantada.

O Manejo era seu reduto, onde se sentia livre das atribulações da vida de assalariado nas grandes cidades. Mas, naquele pequeno calvário algo lhe ocorreu, uma súbita sensação de que não mais voltaria a sentir aquela brisa gelada das manhãs, que faziam dos verões agradáveis e dos invernos intimidadores. Dos jogos aos domingos em que torcia fervorosamente para seu filho mais velho fazer mais um gol. Da casa de sua mãe, onde religiosamente tinha de passar uma vez pela manhã e outra à noite. Dos amigos nos botequins e os jogos de sinuca, que quase sempre perdia, mas nunca desistia. De sua casa, seu cantinho do sofá, das tardes na escada do paiol com Nego a seus pés. 

De repente acordou do devaneio com o barulho do ônibus. Antes de subir deu uma última olhada à sua terra encantada, ao seu companheiro que nunca mais teria sua cabeça afagada pelo dono. Entrou, se sentou e em meio à respiração nervosa teve a sensação que jamais voltaria a ver tudo aquilo de novo. E não viu.

domingo, 8 de março de 2015

Às mulheres de minha vida


Sabe, quando era criança, sempre me perguntei por qual motivo deveria existir o Dia Internacional da Mulher. Ficava indignado mesmo, ouvia minha mãe e minha irmã se sentirem especiais naquele dia e me surpreendia com uma inveja tola. Com o passar dos anos, cresci lendo, vendo e sentindo o motivo da importância de tal dia. Hoje, relembrando minha trajetória e minhas vitórias, percebo que todas estão ligadas às mulheres de minha vida, aquelas que com uma palavra ou gesto conseguiram me direcionar ao caminho de homem feliz que sigo atualmente. Por tudo isso agradeço:

À minha mãe, Dona Neuza, mulher que não aparenta, mas é de uma força extraordinária, que soube vencer todas adversidades e fazer com que eu me tornasse uma pessoa respeitável e respeitadora. 

À minha irmã Flavia, que foi minha primeira grande amiga, minha primeira professora, e que sempre esteve do meu lado quando estive certo e errado.

À minha professora do pré-escolar, Jane, sim, pois com sua bondade e paciência me despertou uma estranha vontade de aprender sempre mais e mais. 

À minha avó Maria, a única que conheci e que sempre me tratou com amor e carinho, além de ter me dado um pai maravilhoso.

À minhas primas Waleska e Wanessa, que foram minhas companheiras de travessuras nos tempos de criança, com adorava as férias em que iam para nossa avó.

Às minhas tias Dete, Maria e Terezinha, que nunca me negaram carinho.

À minhas "parentas" emprestadas, Daniele, Adriana, Edina, Vânia, que jamais negaram suas casas para que eu pudesse passar horas com um bom, ou nem tanto, papo.

À minha madrinha emprestada, Dorvalina, que me permitiu passar horas, dias e anos inesquecíveis em sua casa. Ainda tinha de ter paciência com a bagunça que ajudava seus filhos fazer.

À minha companheira de trabalho, Maria das Graças, que me ajudou a enfrentar em momentos difíceis em um emprego estressante.

À minhas professoras da faculdade Ana Marta Ladeira e Christiane Milagres, que foram essenciais para que me tornasse um jornalista.

À minhas "avós" Almerinda e Tereza, que me receberam em suas famílias com o amor que tratam seus descendentes de sangue.

À minha sogra Simone, que, além de ter me permitido entrar em sua família, sempre me ajuda de todas formas que pode.

À minha maravilhosa esposa e amor Bárbara, que foi a responsável por todas minha conquistas, que acreditou em mim quando eu mesmo duvidava.

À todas vocês um feliz Dia Internacional da Mulher, e que o mundo continue a evoluir e conceder a vocês a importância e igualdade que merecem. Quem estaria aqui se não fosse pelo dom da vida que só vocês podem perpetuar?