domingo, 13 de agosto de 2017

No Dia dos Pais sempre teve Frango!

No Dia dos Pais sempre teve frango. Raramente meu pai deixava de comer um "tira-gosto" nos domingos em que estava presente em casa. Mesmo sem dinheiro ou crédito, lá estava o frango, o "figuinho", a moela ou qualquer outro tipo de carne que pudesse conseguir. O domingo para ele era especial. Acordava cedo, se ocupava com algum afazer da casa, como capinar o terreiro. Parecia adorar tanto quanto eu odeio. Logo após já estava na casa de sua mãe. Jamais deixou de comparecer lá ao menos para lhe tomar uma "bença". Aí vinha os amigos, o boteco, a bebida, mas não o suficiente para evitar que voltasse para casa a tempo de pegar o almoço quentinho e o "tira-gosto" saboroso no ponto. Depois tinha o cochilo. Inevitável. Porém, nunca tempo demais para que perdesse o jogo do Flamengo na TV, o do primeiro time do Manejo lá no campo. Domingo era seu dia. À noite chegava em casa cedo. Comia a comida requentada do almoço, obviamente com aquele restinho do "tira-gosto", assistindo a qualquer bobagem que a TV dia de domingo passasse. Ria de bobeiras, brincava com as crianças, e não largava seu algoz, sempre ali entre seus dedos, a envenená-lo, a espera dos gols do Fantástico. Enfim dormia. A gente nunca o via sair às cinco da madruga para enfrentar um caminhão que o levaria para outra cidade, para mais uma quinzena longe, na labuta. Há doze anos, num domingo de Pais não teve frango. Não servem isto a doente no hospital. Não teve a capina, a visita à mãe, nem aos amigos. Nem o jogo quis ver. às onze da noite daquele dia ele se foi. Nunca mais teve frango no Dia dos Pais. Se bem que nos ficou a saudade, a lembrança, isso não pode nos ser privada. Ainda bem. Então decretamos, sempre haverá frango no Dia dos Pais, se não na mesa, ao menos no coração daqueles que se lembram. No Dia dos pais  sempre haverá frango! 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

De Brokeback Mountain à Coxinha: Histórias de Meu Irmão

Bem, falar coisas boas do meu irmão é chover no molhado. Prefiro focar em uma coisa que ele é uma unanimidade: construir histórias impagáveis. Puxei da minha mente algumas das melhores. Espero que gostem!

VOVÔ E A PEDRA

Sabidamente o Éder (sim, só chamo ele de seu nome verdadeiro!) era o mais terrível dos filhos de Dona Neuza, com peraltices de deixa-la de pele branca (apesar de médicos dizerem ser vitiligo). Meu avô andava impaciente com as constantes brigas de seu neto com Lilinho, o antagonista da primeira infância do pequeno Éder. Dia após dia era o mesmo “toma conta desse menino, tá na rua brigando de novo”. Minha mãe, entre safanões e chineladas não dava conta. Pobrezinha. Um dia o endiabrado se encantou com um estilingue (atiradeira no bom manejês) e dando de ombros às ameaças de mamãe, mandava pedras em direção à rua de baixo, sem se importar a quem iria alvejar. Para seu amargo azar, seu avô fazia a caminhada da tarde, e segundo confiáveis testemunhas que bebiam tranquilamente em um butiquim, o velho Capalengo praguejava enquanto se abaixava para pegar o chapéu. Sim, por coincidência o atrevido lhe deu uma pedrada na lua. Entre os grunhidos as testemunhas discerniram um “aposto que foi o Éder”. Fava contada. Mas, esse fato mudou a trajetória do menino, que passou ir com o avô na fazenda do Seu Walter, onde aprendeu muita coisa e fez grandes amigos.


ELE DORME, ELAS....

Uma coisa de se admirar no cidadão é como tem uma capacidade monstruosa de fazer amizades sólidas. Talvez pelo seu enorme coração, sei lá. O certo é que, quem gosta dele, gosta mesmo. Em uma longínqua noite, Eder sai para se divertir com suas amigas de infância, Mariana e Amanda. O danado tinha de acordar cedo e foi na frente, para tirar uma boa soneca no apê das garotas. E quando o rapazinho dormia filho, nem a Anita e seu Show das Poderosas no último volume (sim, a música foi seu despertador por um longo tempo) ou o Edmilson dando-lhe tapas na fuça, era capaz de fazê-lo acordar. O sacana adormecido, não ouviu o telefone tocar, dentro de sua cara. Não ouviu o clamor das garotas embaixo de sua janela. Mariana, tadinha, ainda estava passando mal. Só matando. Um ex-namorado de Amanda conseguiu uma escada, para entrar pela janela (que sorte, era segundo andar!) e salvar a madrugada. Ops, já era dia! E o miserávi? Continuou dormindo o sono dos sacanas. Pasmem, são amigos até hoje.


BROKEBACK MOUNTAIN

Dos costumes mais bizarros de meu irmão, um dos top five com certeza é conseguir assistir a um filme duas vezes seguidas. Seguidas. Como assim gente? Bem, como alguns sabem sou cinéfilo, daqueles de ter coleção, de Missão Impossível a Morangos Silvestres, e ostento ao lado de minha irmã, um acervo razoável. Um dos problemas de se morar com uma mãe que censura cenas de sexo e violência é ter de esperar altas horas para que se possa desfrutar um bom filme de censura 18 anos. Entretanto, em um mês de férias, meu irmão, que já tinha cometido a proeza de assistir a 24 episódios de Smallville em um dia (acreditem por favor!), resolveu passear pela coleção. Desprovido de qualquer noção colocou para rodar, às duas da tarde, imaginem, atrapalhando Dona Neuza assistir ao Vale a pena Ver de Novo, O Segredo de Brokeback Mountain, o brilhante filme de Ang Lee, que conta uma linda história de amor entre dois homens. Para nós, nada a ver, mas para uma senhora sensível a censura 18 anos, meu deus. Na cena da barraca minha mãe saiu da sala. E quando o famigerado filme acabou? O maluco, elevando o grau de falta de noção, assistiu de novo, para desespero de Dona Neuza, aborrecida sentada na varanda. Dizem as más línguas que depois da segunda sessão, consternado e com olhos marejados, o rapaz se levantou e foi cheirar e abraçar uma jaqueta do Willian, nosso amigo Leitão Donato. Isso prefiro não comentar.


A CAIXA DE BOMBOM

Se alguém entre todos amigos de Éder ostenta as melhores histórias com ele, este é com certeza Aloisio Afonso, o Afonsinho. Desde que se conheceram em uma tarde o mané com uma roupa pra lá de colorida e canelas longas tentou o intimidar (pense no Will Smith na abertura de Um Maluco no Pedaço, pois é), se tornaram grandes amigos. Certa vez, sei lá por que cargas d’água duas garotas da cidade, a passeio no Manejo, resolveram dar bola para os dois panguás. Se animaram, e ganharam o apoio da Dona Dorvalina, mãe do Afonsinho, por acaso, madrinha do Éder, que lhes compraram uma caixa de bombons para cortejarem as minas. De banho tomado, bem vestidos (é.... o Éder saiu de casa com uma combinação de vermelho e amarelo, mas, deixa o muleque!), os dois se reuniram na casa do Afonsinho para esperar a hora do encontro. Vocês acreditam que os lazarentos abriram a caixa de chocolates e encheram o bucho? Menos mal que não comeram tudo e levaram para as garotas o meio amargo e os crocantes. Serenata? Nem o papel. Se ficaram com as garotas? Vocês ficariam? Panguás.


UMA COXINHA E DEZ KM


Os inseparáveis Éder e Afonsinho iam todos os sábados a Lima Duarte treinar no time dente de leite do Associação. Sério gente, meu irmão sempre teve um problema em perceber o quanto era (é um pouquinho ainda, deve ser) sem-noção. O pobre Afonsinho, acompanhou Éder em um delicioso lanche na rodoviária (um buteco que vendia as passagens). Atencioso e cortês, o Cuiquinha fez as honras e pagou um guaraná e uma coxinha, para ele e o seu grande amigo, que havia pago sua passagem de ida. Com o “estominho” forrado era hora de comprar as passagens da volta. O mizerávi foi lá e comprou a dele enquanto Afonsinho esfregava as mãos, em cacoete que carrega até hoje, esperando que o rapaz retribuísse a compra de sua passagem na viagem anterior. “Não fin, eu te paguei com a coxinha”. Resultado? Enquanto Afonsinho amargou 10 Km de caminhada sob sol escaldante do meio-dia para regressar ao Manejo, o sacana lhe acenou pela janela do ônibus, em um puro sinal de boa fé. O mané do Afonsinho ainda é seu padrinho.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sabe, não sei

Não sei se é por causa do sorriso límpido de alguma bobeira que faço;
Não sei se é por causa dos olhinhos levemente inchados após acordar;
Não sei se é por causa da felicidade que tem em abraçar sua cadela;
Não sei se é por que solta pum perto de mim e não disfarça;
Não sei se é por que adora acordar cedo e ir trabalhar;
Não sei se é por que está sempre me dando conselhos sensatos;
Não sei se é por que gosta de assistir musicais comigo;
Não sei se é por causa do seu dedão do pé engraçado;
Não sei se é por que adora conversar com seu avô;
Não sei se é por que não ri pra qualquer um;
Não sei se é por que faz cara de tédio quando começo a falar de coisas chatas;
Não sei se é por que torce para o Flamengo;
Não sei se é por que fala com vozinha de criança quando quer cafuné;
Não sei se é por causa que  implica comigo em um sábado à tarde;
Não sei se é por que não consegue ver filme de cachorro sem chorar;
Não sei se é por causa do seu chinelo do Mickey Mouse;
Não sei se é por que tem intolerância a lactose;

Enfim, tentei encontrar, porém não consegui. Não sei qual é motivo de te amar tanto assim, mas amo. E isso basta.

Parabéns para você e espero que continue com os mesmos olhos felizes do dia em que te conheci.

TE AMO!

domingo, 25 de setembro de 2016

A Lenda de um rapaz Incomum


Amava cinema. Uma dentre as poucas boas coisas que amava. Odiava o Zorra Total. Uma dentre as inúmeras coisas boas e ruins que odiava. Sim, é complexo, como sua trajetória, seu comportamento, capaz de sair na porrada com um colega e beber com ele horas ou minutos depois. Sempre foi assim, indomável, sem meias palavras, sem regras de etiqueta (pobres professoras) que o fizessem comum. Era incomum. Na capacidade de ser espontâneo, de jogar futebol, de ser incoerente. Se dizia cagar para o mundo, mas enxergava alguma beleza nele que fazia com escrevesse poesias em seu caderno de matemática, quase sem anotações, óbvio. Sim amigos, o mesmo rapaz que atravessava “corredor polonês” na escola, que peitava, sozinho, uma turma de valentões em uma balada, era capaz de fazer poesias, de cantarolar Cazuza, ler Dostoievski ou divagar sobre o universo e sua existência. Talvez este seja o ponto que o tornava um paradoxo humano. Uma pessoa difícil de se ler, de se entender. Até mesmo para os mais amigos. Existia ali uma força que não compreendíamos, e acredito que nem ele mesmo. Algo que criava uma inércia emocional que reservava 10% de seu eu para si, que consumia sua vontade de ir atrás do que sonhava. Deixava distante seu (UM) SONHO DE LIBERDADE (Ah, seu filme predileto). Algo que não conseguimos afastar dos outros 90% de sua persona. Um fatídico dia veio. Nos restou a saudade e a tarefa de propagar sua mitologia. A lenda de um rapaz incomum, que sabia ser rude e estúpido na mesma intensidade que sabia ser sensível e amigável. De um rapaz que era paradoxal demais para ser daqui. 


sábado, 17 de setembro de 2016

A Cachorra e sua Menina




Não é amizade. É amor, incondicional. Se fitam como se conhecessem há séculos, de outras vidas. Talvez seja isso. O que sentem não dá para explicar, apenas observar, e observando somos contagiados por uma energia benfazeja única. Seja no passeio pelas calçadas da cidade pacata, seja no cochilo pós-almoço de sábado, a ligação entre elas é como um conto de fadas, mas que partiu do “felizes para sempre” logo no início. Ainda que se desentendam, isso é tão breve que não se diferencia de uma das muitas brincadeiras. Aos outros, basta mesmo é observar. Não fazem questão de que gostem delas ou que aprovem sua relação. Pois só elas sabem o bem que se fazem, o carinho que se proporcionam, o alento em um coração triste ou o complemento de um momento de felicidade. É uma relação de amor em seu mais puro estado, daqueles que fazem uma deslocar pela madrugada para ver a outra, ou que a outra se plante atrás de uma porta ate que a uma retorne. Assim é, e assim será, enquanto o destino inerente a todo ser vivo não faça valer sua inevitabilidade. Será sempre a cachorra e sua menina. Amor de verdade.

domingo, 8 de maio de 2016

Um pouco sobre minha Mãe

Neuza Maria da Silva tem uma vida boa hoje, compra o que quer, come o quer, fala o que quer. Mas, se contar tudo que passou para chegar a sua pacata vida no vilarejo de Manejo, em Lima Duarte, talvez dê um livro. Mas, vou tentar resumir um pouco segundo seus próprios relatos. 

Neuza sempre foi trabalhadora, e aos 9 anos já trabalhava em casa de família, na casa de um alemão. Lá viveu algumas experiência que a ajudariam a se tornar um futura mulher forte e aguerrida. A primeira delas foi um acidente de carro, do qual até hoje carrega uma cicatriz, que, toda vez que a olho ou acaricio sinto um certo temor por ter sido impedido de ser seu filho pela imprudência de um motorista bêbado. Dormia em uma cama com suas duas irmãs e uma adorável porquinha.

Na alta juventude, foi morar no Manejo com sua irmã mais velha, bem mais velha aliás, a qual considerava como uma mãe, já que esta a deixou ainda em sua tenra idade. Nessa época conheceu o João, sujeito malandro metido em uma calça branca e de papo leve. Casaram-se algum tempo depois e nasceu sua menina, a Flávia, que seria sua companheira de sempre. Nessa época moravam em Benfica, em Juiz de Fora, o "melhor lugar onde morou", como gosta de dizer, sempre que se indispõe com algum vizinho. Lá também nasceu seu filho do meio, o que mais deu trabalho, porém o mais adorado (e isso não é papo de ciumento, toda mãe tem um) dos três.

Depois do nascimento do terceiro filho, que vos escreve, sua vida entrou em um momento difícil, reflexo da crise econômica brasileira do final da década de 80 e início da década de 90. Aí foi o momento de ser a mulher guerreira que nasceu para ser. Neuza criou seus filhos praticamente sozinha, já que seu marido trabalhava fora e só comparecia dois finais de semana por mês. Mesmo que não tenha sido um pai ausente e que tenha sua parcela na criação dos filhos, a mãe foi a que enfrentou todas as barras que o amadurecimento de adolescentes pode proporcionar. 

Enfrentou cafezais, sendo transportada em caminhões sem segurança alguma. Encarou a geada da manhã, o almoço frio, e as próprias limitações físicas, já que não era nenhuma garota à época. Tudo isso por sua vontade de dar a seus filhos alguma qualidade de vida, nem que fosse uma alimentação de qualidade. Às vezes, quando suas forças falhavam e meu pai ganhava muito pouco, se virava para nos dar o que comer, mesmo que isso fosse apenas macarrão com pimentão. Em meio toda as dificuldades da vida, sempre acompanhei com muita angústia as noites em que ela passava em claro, fumando seu cigarro de palha e rindo de devaneios que não a deixavam descansar. 

Entretanto, quando vieram os anos 2000, algumas coisas mudaram, e seu Ederzinho entrou para o quartel, engajou, se tornou cabo e mandou arrumar a casa, que aos poucos ruía. Menos uma preocupação em sua cabeça (já que ela tem muito medo de chuva, apesar de jurar de pés juntos que não). Em 2004 teve uma grande surpresa quando seu marido resolveu parar de beber. Afastado do trabalho devido a problemas cardíacos, ele se dedicava à casa e a ela, como a décadas não acontecia. Tudo ótimo? Ainda não.

Um ano mais tarde sofreu seu primeiro grande baque. João tombou, internado com uma suposta pneumonia, que um mês depois se confirmava um câncer de pulmão e uma semana depois jazia em seu túmulo no cemitério do Manejo. Neuza sofreu, entrou em depressão. Como superar a perda de um parceiro de uma vida? Aquilo não lhe parecia justo. Mas, ao invés de se entregar ela decidiu seguir em frente. Atirou um cigarro pela janela para nunca mais colocá-lo entre os dedos novamente. Recuperou a alegria, as brincadeiras bobas voltaram. Viu seus filhos se formarem, um se casar, e aos poucos irem tomando rumo.

Aí veio o segundo baque. Sua irmã mais velha, sua segunda mãe se foi. Perdeu o chão e o controle de sua glicose. Mas, absorveu a pancada, e rapidamente entendeu que a vida é assim, as pessoas vivem e morrem, isso é natural. Decidiu continuar vivendo, comendo bem, aproveitando sua vida e de vez enquanto se preocupando com os filhos, pois não seria mãe se não o fizesse. Reza, ri, assiste O Senhor dos Anéis dezenas de vezes. Faz brincadeiras bobas com sua companheira de sempre, a Flávia. E apesar de toda a saudade de seus entes e às vezes achar que o copo está meio vazio, vive uma vida feliz.

Ao olhar em seus olhos sinceros, talvez ninguém consiga imaginar que aquela mulher já enfrentou muita coisa, sofreu como poucas. Mas estranhamente não se vê o sofrimento guardado ali. Dona Neuza ensinou a mim e aos meus irmãos a não levar desaforo para casa, não pegar nada de ninguém, não desrespeitar os mais velhos, a não comer manga e beber leite, e principalmente que tudo o que o destino nos impõe pode ser dobrado e colocado de lado. Para mim será sempre minha heroína, a pessoa que formou meu caráter e que me disse uma vez que ninguém seria melhor do que se eu não aceitasse. Por isso eu a amo.

E  isso é apenas um pouco sobre minha mãe.

P.S.: Hoje, 08/05/16, depois de terminado este texto, Dona Neuza veio a perder mais uma de suas irmãs. Tia Graça, a qual não via a décadas, mas mantinha contato por telefone, faleceu vítima de um ataque cardíaco. Minha mãe sofreu,(era a que defendia ela das coças da minha avó) e sofrerá por alguns dias. Mas, tenho certeza que superará, e estará pronta para continuar sempre em frente, digno da guerreira que é.




sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Crônicas da saudade: Tudo aquilo que não vivemos


Ah, como estou com saudade! Lembra daquele dia, em que o Flamengo ganhou do Vasco na final da Copa do Brasil? Até hoje morro de rir dos nossos vizinhos irritados com os foguetes de três tiros que insistiu em soltar depois da meia-noite. Só não foi mais louco que aquele dia do título brasileiro de 2009. Nossa, como a gente gritou na rua, como um bando de gente doido. Nossa, parece que foi ontem...

E o dia em que a Flávia concluiu o terceiro ano. Nossa, você quase chorou de tanto orgulho, já que sempre quis que ela terminasse os estudos, pois você adorava se gabar com todo mundo  que sua filha era a mais inteligente da comunidade. Lembro direitinho no dia em que ela nos mostrou as notas do ENEM. Primeiramente você não entendeu o que tudo aquilo significava, mas quando lhe disse que 100 pontos (!!!) em uma redação de nível nacional era um absurdo, correu para a venda comprar um frango pra janta. Comemos até ter de tomar bicarbonato depois.

Sem esquecer da formatura do Eder. Caramba, você não gostava de perder uma festa, e aquele dia então... colocou um terno azul-escuro, penteou o bigode e até conseguiu fazer a mãe ir. Sua cara de bobo vendo o filho se tornando o homem que o criou para ser, me marcou. Quando ele o homenageou na formatura, aí você não aguentou né. Chorou sim que eu vi, aliás, choraram, já que seu filho do meio desanda a chorar por qualquer coisa mesmo.

Ri demais no dia em conheceu a Bárbara e não acreditava que seu filho havia arrumado uma namorada tão bonita. Aliás, no dia em que noivamos roubou a noite com suas piadas e a conversa fiada de sempre. No dia do casamento parecia ansioso, como fosse você a casar. Eram só alguns papéis, mas se sentia em um grande evento. Ah, e no dia em que me formei jornalista? Foi pro boteco distribuir o “eu falei que ele ia ser jornalista” para seus amigos, o que sempre me encabulava, mas lhe deixava radiante.

Como me arranca um sorrisinho aquelas noites de domingo, em que você gostava de ver a Dona Neuza enfezada, ora reclamando do programa de TV, ora reclamando que estava passando mal. Às brigava até com juiz que havia “roubado” o Flamengo naquele dia. Soltava o seu irritante “num é possível” só para fazê-la franzir o cenho e praguejar algo que ninguém ouvia, já que suas gargalhadas abafavam.

Mas tiveram aqueles dias tristes, como quando perdeu sua mãe, minha avó. Sei o quanto a amava. Ninguém conseguia lhe dizer nada, apenas abraçá-lo. Seu irmão também se foi, assim como alguns diletos amigos. E o que dizer daquele dia em que seu melhor amigo, seu cachorrinho inseparável sumiu. Das buscas sem sucessos que fizemos por todos os lados. Todo este sofrimento só foi vencido pelo o amor que sempre estávamos dispostos a lhe ceder. Passamos por tudo juntos!


Bom pai, uma pena que isso não são lembranças reais, são apenas frutos de uma saudade imensa, do tamanho do amor que senti e sinto por você. Não tenho nenhum tipo de crença em deuses ou sequer sou ligado a alguma doutrina religiosa, mas, às vezes, me pego imaginando que isso não pode ser só isso, nossa existência não pode ser tão medíocre. Porém, vejo que este meu pensamento só é a necessidade de querer um dia te ver de novo, te falar tudo o que não falei, de fazer que a saudade de tudo que não pude viver contigo seja abranda por mais um abraço. Um dia, no meu dia de ir, espero que minhas convicções estejam erradas, e lá esteja você me esperando, sentado encolhido em um canto qualquer, com seu cachorrinho deitado a seus pés, você me olhando...