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O feliz aniversário do Pato-rouco

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Nunca tive uma festa de aniversário quando pequeno. Nunca experimentei aquela adrenalina que deve ser para uma criança esperar o momento de reunir a galerinha em brincadeiras mil, se empanturrar de doces e salgados, e assoprar as velinhas. Ah, como sonhei em assoprar as velinhas acompanhado do “é big, é big, é hora, é hora, rá-tim-bum”. Mas não tive a sensação. Primeiramente pela condição socioeconômica insuficiente, e depois pela inconveniência de se nascer entre o natal e o ano-novo. Quando surgia a possibilidade de uma comemoração, vinha o “vamos comemorar junto com a ceia”. Balela que uma criança não engole, de jeito nenhum. E os presentes? Bem, quando ganhava era para os dois. Aceitava, óbvio, mas ressentia, pois no dia 30, neca de catibiriba. Além de tudo, meu pai nunca estava presente, só chegava no dia 31, à tarde, sem mesmo a possibilidade de ouvir sua voz pelo telefone me felicitando. Minha mãe fazia o que estava a seu alcance. Comprava um frango fiado, fazia uma maionese d…

Existe razão

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Adilson abriu os olhos mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram, enquanto a Aline estudava em outro canto do Manejo como eles disseram. Tudo bem, não foi assim tão casual quanto o romance cantado pelo mítico Renato Russo e, pensando bem, não sei como foi. Mas imagino, posso imaginar, que os olhares se cruzaram sob o pretexto de um gosto em comum, o Legião, em que os legionários viúvos de seu ídolo cantavam à sua morte. E ele, o mesmo sorriso de canto de boca, o mesmo cavanhaque sem vergonha dando-lhe um charme a lá Casanova, dedos sagazes a soprar notas sedutoras ao ouvido da púbere. Que não era dessas romaticazinhas de caderneta. Esperta, se escondia por detrás de um véu de timidez, para embrulhar os pudicos, mas a gente sabia, ele sabia, a menina era atrevida, e na irresponsabilidade da adolescência namoraram um namorico. Destes que vão e voltam, beijos aqui e acolá, nada sério.
Mas o lance se tornou um encanto, de correntes firmes, que se elevavam ao shakespea…

No Dia dos Pais sempre teve Frango!

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No Dia dos Pais sempre teve frango. Raramente meu pai deixava de comer um "tira-gosto" nos domingos em que estava presente em casa. Mesmo sem dinheiro ou crédito, lá estava o frango, o "figuinho", a moela ou qualquer outro tipo de carne que pudesse conseguir. O domingo para ele era especial. Acordava cedo, se ocupava com algum afazer da casa, como capinar o terreiro. Parecia adorar tanto quanto eu odeio. Logo após já estava na casa de sua mãe. Jamais deixou de comparecer lá ao menos para lhe tomar uma "bença". Aí vinha os amigos, o boteco, a bebida, mas não o suficiente para evitar que voltasse para casa a tempo de pegar o almoço quentinho e o "tira-gosto" saboroso no ponto. Depois tinha o cochilo. Inevitável. Porém, nunca tempo demais para que perdesse o jogo do Flamengo na TV, o do primeiro time do Manejo lá no campo. Domingo era seu dia. À noite chegava em casa cedo. Comia a comida requentada do almoço, obviamente com aquele restinho do &quo…

De Brokeback Mountain à Coxinha: Histórias de Meu Irmão

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Bem, falar coisas boas do meu irmão é chover no molhado. Prefiro focar em uma coisa que ele é uma unanimidade: construir histórias impagáveis. Puxei da minha mente algumas das melhores. Espero que gostem!
VOVÔ E A PEDRA
Sabidamente o Éder (sim, só chamo ele de seu nome verdadeiro!) era o mais terrível dos filhos de Dona Neuza, com peraltices de deixa-la de pele branca (apesar de médicos dizerem ser vitiligo). Meu avô andava impaciente com as constantes brigas de seu neto com Lilinho, o antagonista da primeira infância do pequeno Éder. Dia após dia era o mesmo “toma conta desse menino, tá na rua brigando de novo”. Minha mãe, entre safanões e chineladas não dava conta. Pobrezinha. Um dia o endiabrado se encantou com um estilingue (atiradeira no bom manejês) e dando de ombros às ameaças de mamãe, mandava pedras em direção à rua de baixo, sem se importar a quem iria alvejar. Para seu amargo azar, seu avô fazia a caminhada da tarde, e segundo confiáveis testemunhas que bebiam tranquilament…

Sabe, não sei

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Não sei se é por causa do sorriso límpido de alguma bobeira que faço; Não sei se é por causa dos olhinhos levemente inchados após acordar; Não sei se é por causa da felicidade que tem em abraçar sua cadela; Não sei se é por que solta pum perto de mim e não disfarça; Não sei se é por que adora acordar cedo e ir trabalhar; Não sei se é por que está sempre me dando conselhos sensatos; Não sei se é por que gosta de assistir musicais comigo; Não sei se é por causa do seu dedão do pé engraçado; Não sei se é por que adora conversar com seu avô; Não sei se é por que não ri pra qualquer um; Não sei se é por que faz cara de tédio quando começo a falar de coisas chatas; Não sei se é por que torce para o Flamengo; Não sei se é por que fala com vozinha de criança quando quer cafuné; Não sei se é por causa que  implica comigo em um sábado à tarde; Não sei se é por que não consegue ver filme de cachorro sem chorar; Não sei se é por causa do seu chinelo do Mickey Mouse; Não sei se é por que tem intolerância a lactos…

A Lenda de um rapaz Incomum

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Amava cinema. Uma dentre as poucas boas coisas que amava. Odiava o Zorra Total. Uma dentre as inúmeras coisas boas e ruins que odiava. Sim, é complexo, como sua trajetória, seu comportamento, capaz de sair na porrada com um colega e beber com ele horas ou minutos depois. Sempre foi assim, indomável, sem meias palavras, sem regras de etiqueta (pobres professoras) que o fizessem comum. Era incomum. Na capacidade de ser espontâneo, de jogar futebol, de ser incoerente. Se dizia cagar para o mundo, mas enxergava alguma beleza nele que fazia com escrevesse poesias em seu caderno de matemática, quase sem anotações, óbvio. Sim amigos, o mesmo rapaz que atravessava “corredor polonês” na escola, que peitava, sozinho, uma turma de valentões em uma balada, era capaz de fazer poesias, de cantarolar Cazuza, ler Dostoievski ou divagar sobre o universo e sua existência. Talvez este seja o ponto que o tornava um paradoxo humano. Uma pessoa difícil de se ler, de se entender. Até mesmo para os mais ami…

A Cachorra e sua Menina

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Não é amizade. É amor, incondicional. Se fitam como se conhecessem há séculos, de outras vidas. Talvez seja isso. O que sentem não dá para explicar, apenas observar, e observando somos contagiados por uma energia benfazeja única. Seja no passeio pelas calçadas da cidade pacata, seja no cochilo pós-almoço de sábado, a ligação entre elas é como um conto de fadas, mas que partiu do “felizes para sempre” logo no início. Ainda que se desentendam, isso é tão breve que não se diferencia de uma das muitas brincadeiras. Aos outros, basta mesmo é observar. Não fazem questão de que gostem delas ou que aprovem sua relação. Pois só elas sabem o bem que se fazem, o carinho que se proporcionam, o alento em um coração triste ou o complemento de um momento de felicidade. É uma relação de amor em seu mais puro estado, daqueles que fazem uma deslocar pela madrugada para ver a outra, ou que a outra se plante atrás de uma porta ate que a uma retorne. Assim é, e assim será, enquanto o destino inerente a t…