sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

SÓCRATES: REBELDE OU HERÓI?


Ele foi um dos grandes exemplares de atletas numa época romântica do nosso futebol. Mais que um talentoso jogador, Sócrates se fez ídolo não só pelos lances geniais e títulos importantes que conquistou ao longo de sua brilhante carreira. Mais que um ídolo, Sócrates era um homem de princípios cristalinos tornando-se um pilar essencial nos tempos difíceis para o país. A chamada Democracia Corintiana no início dos anos 80 teve em suas ideias lúcidas e empreendedoras, a base para a construção da democracia do país. Militante ativo do movimento Diretas Já, não teve medo em ser tachado de anarquista. Não deixou que sua voz se calasse perante a ditadura. A torcida campeã brasileira hoje sente com pesar sua partida. E vibra com a lembrança deixada por um homem que se fez HERÓI de uma enorme nação. Um raro modelo de atleta preocupado com as questões do país. Bem diferente dos astros individualistas que permeiam o mundo do futebol hoje em dia. Astros preocupados apenas com seus egos e em como deixa-los tão inflados quanto suas contas bancárias. Sem nenhuma ideia de comprometimento com o povo e com a torcida brasileira. Mais lamentável que sua partida, é constatar que cada vez mais nos tornamos órfãos destes tipos de desportistas. Atletas que carregam o país até no sobrenome. Viva Sócrates! Viva a democracia! Viva o Brasil!


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O homem que não tinha Facebook

E lá estava eu, naquela indecisão frente à tela inicial de cadastro da rede de relacionamentos que já coletou mais de 800 milhões de pessoas para sua turminha. Sim, falo do Facebook. Antes de arrastar a setinha para o botão que derradeiramente me incluiria no paraíso virtual criado por um grupo de “amigos” envoltos em uma grande novela de litígios judiciais, percebi que estava me traindo. Já que acredito veemente na futilidade de tal interação artificial.

Imaginei tudo o que o enlace poderia me trazer de benefícios, sim, apesar de a maioria dos usuários utilizarem a rede apenas para o cultivo de egos inflados, é uma ferramenta de muita utilidade nestes tempos estranhos. Contratam-se profissionais de mais variadas áreas através dela. É, ela serve para os carrascos de RHs observar a conduta do postulante à vaga de uma empresa. É como se fosse a virtualização da máxima “me diga com quem andas que lhe direi quem és”. Será?

Pois não faz sentido. Nas telas do diário aberto a olhos famintos por saber da vida alheia, são postos a julgamento apenas uma parte do caráter de uma pessoa. A parte boa. É como se todo mundo lá fosse legal. Participam de festas interessantes, postam links de vídeos e músicas pops, trabalham e estudam nas melhores instituições. Um jogo de dados viciados a só darem números pares, um jogo de cara ou coroa onde a cara sempre vence. O ing sem o iang. Uma imagem de um indivíduo verdadeiramente e ao pé da letra virtual.

E o mais triste é pensar que o progenitor de toda essa febre é um cidadão desprovido de caráter (Pelo menos é o que dá pra entender do livro Bilionários por Acaso de Ben Mezrich e adaptado para as telonas em A Rede Social, de David Fincher). Uma pessoa que cria a maior máquina de fazer amigos virtuais, que ironia, perdeu os poucos bons que tinha. Como assim, que mundo apocalíptico é esse? Seremos reduzidos a figuras rotundas e sedentárias que vivem relacionamentos de mentira e ignoramos um bom papo frente a frente?

Tão assustador, tanto que me fez hesitar novamente. Por que preciso disso? Mas aí percebo que no mundo atual não há mais espaços para revoluções solitárias. Quem não se adapta à nova ordem mundial, é candidato ao ostracismo social. Isso não é mais balela de um teórico chato francês, a cibercultura e a “era da mídia” são inevitáveis. O jeito é se render.

Na verdade, o problema é de quem quiser me conhecer na rede. Ali estará um avatar concebido das mais extraordinárias virtudes, um pomo maduro e sem sabor. Terão de se contentar com uma falsa impressão que só mamãe, irmãos e minha noiva conhecem as falhas. Aproveitarei os benefícios que a conexão poderá me trazer, dane-se o resto.

Pressiono a confirmação e recebo as boas-vindas simpáticas do Facebook.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Relação de Amor em Preto e Branco

O fervor passa-lhe pelas bochechas. Seus dentes brilhavam num sorriso sincero. Os olhos cor de mel e a boca de um aveludado róseo. Fitava-o com admiração infantil, desejava-o como se fosse a última coisa que valesse a pena. Seu corpo nu, branco como neve do Himalaia, contava histórias que poucas páginas ainda eram conhecidas. Os seios alvirrubros e delicados, se enchiam de charme ao se ocultarem nos cabelos lisos que lhe caiam pelos ombros. Os flancos pedintes derivam à mimosa área da libido. A perfeição e o esplendor das nádegas, imponentes. Lembram dois melões e forma e sabor.

Uma paixão visceral arrebatava seu coração. Corpo e mente ansiando pelo momento. Suas mãos brutas e pretas se inquietavam. Passava a língua por entre os grossos lábios, com um olhar misterioso. Seus braços fortes e imperfeitos estremeciam junto com o peitoral sedentário. Seus pelos se enrijeciam por todo corpo. O cheiro de morango silvestre que lhe adentrava as narinas, emocionava os aguçados olhos opacos. O membro já aguardava o desfecho em riste. O coração a ponto de sair pela boca.

O toque. Acariciava aquele monumento de brilho próprio. A recíproca passava pela nuca e chegava ao abdome. Ela exalava um sabor não mais de morango, era um elixir de conhecimento apenas dos deuses olímpicos. Ele absorvia e retribuía em calor humano, herança de seus antepassados. O encontro dos corpos revelava aquilo que lhes consumia. O prazer. A latejante troca de fluídos não era algo selvagem e sim divino. O amor se confraternizava e se alegrava.















O resfolegar acusava o gozo. O capitulo supremo do enlace. Os olhares se encontrando e se estudando. Por que ele gosta de mim? Pensa ela. Ela não liga para minha cor? Pensa ele. O abraço responde a perguntas veladas. O encaixe perfeito carnal e espiritual abrandava aquele medo de se perderem. O beijo sela aquele sublime espetáculo em preto e branco. Um cântico sem ruídos de uma declaração de amor sem palavras.

sábado, 17 de setembro de 2011

Um dia em setembro

Aquele dia acordei estranho. Senti a cabeça pesada, como se tivesse tomado todas na noite anterior. O sol não brilhava. O fosco daquela manhã parecia o prenuncio de uma tempestade que não caía há algumas semanas. O cheiro da brisa poeirenta irritava ainda mais a minha renite. O som dos pássaros estava baixo, como se pressentissem algo de cruel naquele dia. Nem o delicioso café da mamãe parecia tão saboroso quanto antes.

Ao caminhar pela rua de chão batido do lugarejo onde morava, percebi que quase ninguém estava nela. A dona Catarina varria o terreiro como de costume, mas não cantarolava suas velhas canções. O Seu Dico apenas abanou a cabeça para me cumprimentar do portão, o que não era de seu feitio, adorava as pilhérias. A casa de meu amigo, o segundo melhor lugar do mundo para mim naquela época, estava silenciosa. Concluí que alguma coisa estava acontecendo.

Na sala, Adriana estava atônita frente a TV. Perguntei pelo irmão dela, mas não houve resposta. Sentei-me ao seu lado e verifiquei o motivo de tanta concentração. A tela mostrava algumas legendas em meio a fumaça. Perguntei qual filme era e recebi um sorriso irônico como resposta. Ela não disse nada. Percebi então que não se tratava de um filme de Spielberg, e sim de algo sério que acontecera. Aquela imagem jamais sairia da minha memória.

Já havia passado alguns minutos, não sei bem quantos. A fumaça e o caos na TV aumentaram. Comentaristas narravam o fato e chamavam repórteres por todos os cantos do planeta. Mal pude perceber que a plateia na sala naquele momento já triplicara. Era como o último capitulo da novela das oito. Nenhuma palavra, só suspiros e cabeças desaprovadoras. Nem me dei conta que o horário de me preparar para ir para aula já tinha chegado.

No ônibus não se falava de outra coisa. Jovens adolescentes apresentando teorias desenvolvidas pela TV julgavam o tal homenzinho árabe de nome ainda difícil de lembrar e dizer. Alguns prestavam atenção, outros ignoravam o fato. Tinha aqueles que se sensibilizaram, e também os que acharam “bem feito”. Eu não achava nada. Só analisava as bobagens postas em discussão. Estranhamente não me intrometia no debate.

Na escola, o professor abandonou a aritmética e continuou as teses iniciadas pela TV. A diretora interrompeu a aula para convocar todos os alunos e professores ao pátio. Falou sobre o acontecido pela manhã, pediu ajuda de outros integrantes do corpo docente em tentar explicar a importância daquele fato para a história. Profetizam que nossa vida poderia mudar para sempre e que devíamos nos preparar para mais uma guerra, e por aí foi.

O frio fim de tarde, esfriou também o animo de todos no ônibus de volta para casa. Os professores tinham conseguido assustar a maioria. Só os engraçadinhos continuavam naquela insistente alegria forçada. Por fim, desistiram. Aqueles 20 minutos que separam a escola de minha casa foram os mais terríveis em todo o tempo em que estudei. Suplicava em minha mente, que o tempo acelerasse e que minha casa aparecesse diante de meus olhos.

Em casa, ninguém falou do assunto. O máximo foi um “meu deus do céu” de minha mãe. Minha irmã assistia a mais um boletim da TV sobre o ocorrido. Preferi ir para o meu quarto e ler um livro da Agatha Christie que tinha começado a ler no dia anterior. Os únicos ruídos que vinham de dentro da casa pertenciam ao apresentador do noticiário e os gritos de minha mão com o gato malhado que miava desesperadamente na cozinha.

Comi e deitei-me para continuar a leitura. Dormi e tive pesadelos intermináveis com o caos daquela manhã. Acordei por várias vezes durante a noite. Não entendia como algo que aconteceu tão longe mexeu tanto comigo e com todos ao meu redor. Seria o poder da TV em exagerar que apavorou a todos? Só sei que na manhã seguinte tudo parece ter voltado ao normal. Acordei bem e o dia estava claro e sonoro. Na rua, o burburinho dos vizinhos me alegrava. Tudo voltou ao normal.

Vi um menininho que rodopiava sem para no meio da rua. Pensei que ele era o único que não havia sofrido com a calamidade do dia anterior, mas sofreria com suas consequências. Sentei-me no meio-fio ao lado do meu portão e comecei a pensar que todo aquele horror pode ter sido o pontapé inicial para o fim do mundo. Hoje, dez anos depois, percebo que o fim do mundo é subjetivo. As coisas não estão acabando, mais sim mudando. Não sei se para o bem ou para o mal, e o quanto isso vai me afetar. Só sei que o mundo nunca mais foi o mesmo depois daquele dia cinza de setembro.

sábado, 10 de setembro de 2011

O Caso da Borboletinha

Por duas vezes a Borboletinha voou sobre a cabeça do Homem. Ela queria apenas mostrar toda sua exuberância, talvez querendo que ele a notasse. Mas não havia resposta positiva, apenas tapas, assopros e blasfêmias. Era uma pessoa insensível ao tipo de beleza que exprime um bichinho tão delicado. Por dias tentou contato, porém em vão. Nem a aproximação dela, o Homem permitia mais.

Eis que um dia, acordando de uma sesta, ele a enxergou. Na pontinha de seu nariz pode observar tudo o que não se permitiu ver por um bom tempo. A Borboletinha fazia pose, se sentiu com o astral ascendente. Por vários minutos se olharam, se admiraram, se apaixonaram. O Homem se retraiu. Aquilo jamais poderia acontecer, pois era um machão convicto. Nunca se inclinaria a uma situação daquela.

Passaram a se ver todos os dias. Ele sempre quis parar, mas já era tarde. A Borboletinha havia tomado seu coração, era sua pequena musa. O Homem se rendeu ao amor que sentia, passeava, cantava, dançava, sempre com ela ao seu lado exalando graciosidade por onde passava. Sonhava com um mundo onde pudessem se casar, ter filhos, viver uma vida conjunta. Eram um para o outro, assim como o céu para as estrelas.

Até que um belo dia a Borboletinha não apareceu. O Homem saiu à sua procura pelo pomar. Vasculhou por toda à tarde, porém nada encontrou. Quanto mais o crepúsculo se aproximava, mais o desespero dele aumentava. Recolheu-se, mas não conseguiu dormir. Inutilmente olhava a treva que tomara o pomar. Suas lágrimas saltaram pelos olhos. Sentiu que havia a perdido.

Dia após dia, o Homem ficou sentado na varanda, o lugar onde a viu pela primeira vez. Embora tivesse consciência de que a Borboletinha não mais voltaria, sua esperança se mantinha viva. Aquele vazio o consumia tanto que fixava a visão em alguma folha seca ao longe e se enganava desejando que fosse sua pequena. Por fim percebeu que o tempo é curto demais para amar. Se amargurou pelo resto de seus dias por ter deixado de ver que o amor de sua vida estava ali, mas demorou muito para enxergar.

domingo, 4 de setembro de 2011

O Velho e o Bar



E mais uma vez lá estava o Velho. Cabeça baixa, olhar perdido, parecia compadecido por alguma moléstia incurável. Seus braços pesados, como se tivessem sustentado o mundo nas costas, não mais conseguiam ficar por sobre a mesa. Sozinho, sua única companhia era um Ursinho de pelúcia que encontrara no lixo. Falava sobre sua vida, lamentava suas tristezas. E o ursinho ouvia atentamente.

Um dia o Velho estava agitado. Abanava as mãos grossas e movimentava freneticamente sua boca murcha. O pessoal que ainda estava no bar, se afastou com medo de que a insensatez lhe tirasse a razão. Novamente sozinho, começou a chorar. De repente sentiu um toque aveludado em seus ombros. O Ursinho estava de pé na mesa, com um olhar terno, como se quisesse dizer algo ao seu amigo de longa data.

Ainda sem acreditar, o Velho olhava para todos os lados, mas só ele ali estava. Tomou coragem e perguntou ao Ursinho o que ele queria. Sem nenhuma resposta, levou a mão rude até a cabeça do felpudo. Sim, era o seu amiguinho, aquele de todos os dias, não tinha o que temer. Começou a falar, pediu opinião, abraçou e beijou o companheiro. Ninguém parecia se importar com a interação do Velho com um ser inanimado.

O Ursinho andou até a ponta da mesa. Sentou à frente do Velho e o olhou profundamente.


Vida breve vida que me deixas
Quando me perdes e se queixas
Longos passos ainda posso ir
Ter a certeza de que hei de vir
Boas novas do povo de outrora
Minha lua minha terna senhora
Voltarei a ti



O Velho acordou. O Ursinho estava ali na sua frente, inanimado. Seria sonho ou realidade o que acontecera? Não quis saber. Pegou o amigo, pagou as cachaças que bebeu, e se foi. Nunca mais ninguém viu o Velho e seu amigo Ursinho. Hoje é uma lenda no bar onde sempre frequentou.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Epístola ao Pai




Olá Pai, quanto tempo. Parece que foi ontem que você partiu e ainda sinto a dor daquela noite. Como estão as coisas? Espero que estejam boas, pois aqui tudo anda tudo bem. Desde que se foi muitas coisas mudaram, boas e ruins, felizes e tristes. Hoje sou um homem independente, pago minhas contas, estudo e trabalho. Teria orgulho de ver que o menino inseguro que o senhor deixou aos dezenove, se tornou um adulto equilibrado e responsável. Faço faculdade de jornalismo, e quem diria, estou para me tornar o comentarista que dizia para todos que me tornaria. Uma pena não estar aqui para a formatura.

Por falar em se formar, o Éder se formou, e pela segunda vez. Nem acredito que tenha conseguido tal feito. Não duvidei de sua inteligência e capacidade, isso nunca. Mas para quem abriu mão de estudar para ajudar a família nos momentos mais difíceis, isso foi algo espetacular. Apesar de todos os defeitos, sua força de vontade e persistência é admirável.

A Flávia terminou o ensino médio, como um dia você falou que ela deveria de fazer. Mas ainda não teve como continuar. Trabalha, tem suas responsabilidades e ama cinema assim como eu. Sempre está ao lado da mãe, evitando as trapalhadas, ou ajudando nelas. Sempre esteve ao meu lado também, ouviu meus lamentos e meus textos. Sempre atenciosa. Torço para que continue os estudos, sempre foi a mais inteligente de nós.


A mãe, bom, nisso você nem acreditaria se não fosse eu a te falar. Parou de fumar, administra as despesas, tem lá seus momentos de instabilidade, pois se não seria a dona Neuza, mas se transformou em uma mulher forte. Leva a vida saudavelmente, e mesmo com sua acidez, é uma pessoa de um coração enorme que não cria empecilhos para ajudar alguém que precise.

Ah, Pai! Como gostaria que conhecesse a Bárbara. Minha noiva e mulher de minha vida. Tudo o que sou e conquistei, devo muito a ela. Logo após sua partida, ela preencheu uma lacuna em meu coração. Mesmo diante de meus defeitos, e que não são poucos, não desistiu de mim. Até hoje, meu temperamento, as vezes intempestivo e egoísta, me deixa com medo de que um dia possa se cansar de mim. Mas acredito que ficaremos juntos, teremos filhos e teremos uma boa vida.

Tenho algumas coisas tristes a dizer também. A vovó se foi. Quando você partiu, o baque foi grande para ela. Nunca mais foi a mesma e padeceu junto com a casa, que hoje nem é sombra da residência viva e feliz que de tempos em tempos estava cheia de gente. É triste ver como está cinzenta e feia agora. O Nego também se foi. Mas esse eu não me preocupo. Foi feliz enquanto esteve entre nós e foi tratado como uma pessoa, assim como você fazia. Não era mais o mesmo depois de sua partida, porém nunca nos abandonou. Agora deve estar ao seu lado, todo sem vergonha balançando o rabo.

Queria que não tivesse ido. Mas não sou o senhor do tempo e do espaço. Talvez se tivesse ficado não teria me tornado descrente em Deus, entretanto também não tivesse crescido como pessoa e conquistar o que conquistei. Não vou mais lamentar, somente relembrar. Só quero que saiba que estou feliz, a mãe está bem e a Flávia também. O Éder vai se ajeitar e todos viverão felizes até quando puderem.

Terei filhos e um bom emprego. Uma esposa que amo e que me ama. Se estiver mesmo em um lugar em que possamos nos encontrar, então espero um dia estar aí. Mas terá de esperar, ficarei aqui ainda por um bom tempo. Enquanto isso torça por mim. Te amo muito meu Pai. Até.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Driblando o destino


Família indiana morando na Inglaterra tem problemas com a filha que decide quebrar as regras e se tornar uma jogadora de futebol

Esta bem que poderia ser mais uma manchete de jornal que frequentemente lemos nos jornais de todo mundo a cada dia. Mas o trecho acima se refere à uma sinopse cinematográfica de um tema cada vez mais onipresente na sociedade mundial. Meninas que se aventuram no mundo de um esporte que, se não fosse por elas, já teria perdido todo seu encanto dentro e fora das quatro linhas. Enquanto eles deixam de ser desportistas para se tornarem astros milionários (os chamados pop stars da bola), elas seguem na sua saga enfrentando duros adversários, como uma teimosa falta de reconhecimento e um preconceito sem nenhuma explicação plausível.

Quando uma menina decide ser uma atleta, de certo não encontra nenhuma relutância cabal por parte da família. Afinal de contas, esporte é vida, e na maioria das vezes uma solução mais que saudável de se moldar um ser humano. No entanto quando a opção escolhida é o esporte mais praticado no mundo, este conceito ganha contornos shakespearianos por parte destas mesmas famílias. Ao invés do apoio incondicional, o que encontram é uma defesa impenetrável de argumentos infundados, que nem mesmo o melhor jogador do mundo pode ultrapassar. O preconceito é universal.

O paradigma imposto por uma sociedade ortodoxa impõe aos pais e familiares certos conceitos difíceis de ser superados. Ver sua filha quebrar as regras desta sociedade é como deixá-la entrar numa dividida sem bola com consequências quase irreversíveis para todos os lados. Tanto para o Bem quanto para o Mal. Este deturpado sentimento de proteção se apoia sob justificativas nada racionais. Desde criança somos forçados a acreditar que meninas e meninos têm lados diferentes. Na área de um, o outro não pode entrar. Carrinhos e bolas para eles, bonecas e panelinhas para elas. Crescemos dentro deste contexto que, de tão enfatizado ao longo de nossos anos, se torna quase que um dogma. Se uma menina ousasse chegar perto de uma bola de futebol, logo era taxada de persona non grata e então rechaçada pelos coleguinhas. Isto quando não recebiam certos apelidos pejorativos como o de “Maria-homem” ou coisa pior.

E a situação piorava consideravelmente quando a mesma mostrava ter uma habilidade bem mais apreciável com a bola nos pés do que eles. Como consequência desta ousadia, eram punidas “exemplarmente” pelos familiares. Em casa cansavam de ouvir, sentir na pele, a famigerada frase: “futebol é coisa pra homem. Mulher só toca na bola se for de vôlei.” Batia-se o martelo. Futebol para eles e vôlei para elas. Ora, e quanto à seleção de Bernardinho, que nos trouxe e nos trás tantas conquistas memoráveis? Seguindo, por esta conclusão, será que cairemos numa discussão tão bizarra a respeito da orientação sexual de cada atleta? Hoje isto é algo que, francamente, beira o ridículo!

É por isto que tais conceitos, analisados friamente ridicularizam quem faz disso uma filosofia. Por que razões ainda relutam em reconhecer o espaço das mulheres no esporte mais apaixonante do planeta? Cada vez que ouvimos seus lamentáveis argumentos diante desta inacreditável questão, somos arremessados num campo minado de ignorância. Imagine só o que aconteceria se os pais de Mauren Maggi, Daiane dos Santos, Rainha Hortência e Paula, Juliana e Larissa, Fofão e Cia. tivessem que lutar contra estes mesmos inimigos irracionais que o de nossas meninas de chuteiras? Quantos e quantos talentos seriam chutados para fora! Imaginem então se nossa Rainha Marta e seus familiares tivessem sucumbido a esta injustificável situação?

A protagonista da obra cinematográfica citada no primeiro parágrafo, poderia perfeitamente ter sido inspirada em todas as brasileiras que injustamente tendem a lutar uma batalha desnecessária, que na maioria das vezes começa dentro da própria casa. A jovem indiana do filme nutria uma forte paixão e admiração pelo esporte mais apaixonante do planeta. Determinada, desafiou as tradições de seu país, que tradicionalmente marginaliza a mulher em todos os campos. Driblou um casamento arranjado, e marcou um golaço ao decidir correr atrás de seu sonho na América. Ser como as garotas que, assim como ela, não se deixam levar pelas dificuldades e se entregam com paixão a este esporte embora essencialmente machista.

O mesmo fazem nossas representantes do Brasil. Para elas, o que falta de conquistas e reconhecimento, sobra em coragem e determinação. Afinal de contas, competir contra equipes muito mais bem preparadas do que elas, já é, por si só, um grande desafio. Quando este desafio se reforça com o descaso de seu próprio país, o jogo termina e elas perdem de goleada. Os algozes são, em sua grande maioria, a própria família que representa a pátria de instituições esportivas que não lhes dão o mínimo de suporte necessário para poderem representar com mais força e dignidade as cores de nossa bandeira. Enquanto eles, os marmanjos, se esbaldam no banquete de cifras e festas, elas, esperam ansiosas, pelas sobras que caem da mesa de seus “donos”, os cartolas do futebol.

Um dia, quem sabe, talvez. De tanto driblarem seus destinos, elas consigam finalmente marcar o gol de placa que tanto esperamos para o Bem do esporte. Unidos venceremos os times do descaso e do preconceito. Nem que para isso haja uma prorrogação.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Réquiem para um Cão

Era mais do que um mero animal. Um irmão, aquele mais novo que não tive humano. Desde o distante 1º de abril de 2001 em que apareceu à trote curto e assustado atrás de meu pai, Nego se tornou mais que um bichinho de estimação. O cachorro negro e esguio venceu a desconfiança da matriarca, que sempre cria algum rebu quando adotamos algum pobre animalzinho, e virou uma espécie de capanga canino do Seu João, meu pai.

Aonde ia João, lá estava Nego. Nas pescarias nas quais faltava peixe, mas não animação, o cão montava guarda para evitar qualquer intempérie que a fauna ribeirinha pode causar a um ser humano. Em pouco tempo se tornou o melhor amigo de meu pai. Eram inseparáveis, um uma espécie de signo indicial do outro. Quando um aparecia, lá vinha o outro logo após. Se não era tratado a pão de ló, sua refeição dominical tinha frango e maionese.

Três anos depois, já havia quebrado o recorde de convivência em nossa casa. A maioria de nossos animais de estimação ou morriam na BR-267, que corta os fundos de nosso terreno, ou na covardia de nossos vizinhos e seus pedaços de carne com tempero pra lá de duvidoso. Mas Nego soube se sobressair. Por mais de quatro anos saía em disparada só de ouvir a porta da sala se abrir, sempre na expectativa de um passeio com seu amo.

No primeiro dia do sétimo mês de 2005 ele se despedia de seu grande amigo no portão. Volta pra lá, ordenava meu pai com folego avariado por uma suposta pneumonia. Sua astúcia e atrevimento não o permitiram obedecer a ordem dada. Vazou a frágil cerca de bambu e rapidamente já estava ao lado de seu amigo no ponto de ônibus, mesmo sob protestos da Dona Neuza. Minutos depois, o afago na cabeça marcava o último encontro deles.

Um mês e meio depois lá estava ele ao lado de seu grande amigo. Deitado à porta da capela mortuária, parecia entender que aquela caixa de madeira em que Seu João estava o afastaria dele para sempre. Naquele dia seu pelo perdeu o brilho. Suas orelhas outrora ávidas e espertas lhe caíram pela cabeça. Estava muito mais sentido do que qualquer outro membro da família, pois não sabia o que acontecia durante todo o tempo que o amigo esteve longe. Quando o concreto acabara por sepultar meu pai, percebi que fui insensível em não levantar Nego para olhar pela última vez seu amigo.

Por meses o cão definhou em saudade. Mal saía do paiol em que dormia. Quando disparava na esperança de o barulho da porta da sala ser o de Seu João saindo para fazer um passeio, logo se desanimava ao ver que isso jamais aconteceria de novo. Tempos depois ele reagiu. Mas se tornou um cachorro rebelde. Passou a ficar na rua, a brigar com outros vira-latas, e a chegar todo machucado. Frequentava e se alimentava em casas de antigos amigos de meu pai.

Para nós ele passou a ser um conforto para a ausência de Seu João. Ver ele ali deitado no cantinho da varanda simbolizava uma espécie de vigilância. Para Nego talvez essa vigília fosse uma dívida de gratidão por ter sido tratado como um membro da família por todos aqueles anos. A Dona Neuza que o diga, sempre se sentia mais segura com o franzininho valente ao seu lado. E mesmo ficando fora o dia todo, lá para tantas da noite estava ele a fazer seu papel latindo madrugada adentro. Chegava a irritar.

No último dia 1 abril completou dez anos de convivência. No meu trabalho, em meio as tarefas da labuta me lembrei da data. Sim ele era especial. No dia 22 de junho meu irmão e minha mãe o viram pela última vez balançando o rabo no meio da sala. Nego simplesmente sumiu. O desespero de Dona Neuza me machucava tanto quanto imaginar que ele talvez não aparecesse mais. E não apareceu.

Minha mãe o procurou às margens da BR. Não estava. Era muito esperto para ser atropelado. Ninguém sabe, ninguém viu. Prefiro não pensar no que pode ter acontecido. Sou apenas grato pelo tempo que o tive como meu irmão. Sempre ali, na alegria e na tristeza. Outro dia sonhei com meu pai. Ele estava sentado na porta do paiol fazendo as miniaturas de carros de boi que gostava. Ao lado dele, no lugar onde sempre gostou de estar estava Nego, com as orelhas ávidas e com o pelo brilhante. Havia voltado a ser feliz.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pós-mortein

A morte é sempre um assunto muito delicado. É algo que nos é mistificado assim que começamos a entender o complexo funcionamento do mundo. Ela nos assusta, atormenta, e nos persegue até termos a exata noção de que será inevitável confrontá-la.

Ao sofrermos uma perda, aceitamos a finitude, com a certeza que virá a acontecer outras e outras vezes. Avós, tios, pais, irmãos, amigos, companheiros e filhos, por mais terrível que seja imaginar o momento, ele vai chegar. Entre condolências, eufemismos, lágrimas e desmaios, o roteiro fúnebre se desenvolve de acordo com a cultura do defunto.

Discursos, tiros, cortejos e às vezes canções, tudo é válido para que o momento da despedida seja o menos torturante possível. Palavras, abraços, apertos de mão ou simples olhares, a emoção e a tentativa de confortar os desconfortados se tornam um filme preto e branco, mudo e triste.

Velhos, adultos, jovens ou crianças, a morte não escolhe e nem tem escolha. Ainda que revolte ver uma criança ou um jovem, com uma vida inteira pela frente , inerte debaixo de uma massa cinzenta de concreto, às vezes, e não poucas, acontece.

Mausoléu, jazigo, tumulo ou cova, ao apagar das luzes alguém os habitará. E não importa a classe, cor, credo, todos serão reduzidos ao mesmo denominador comum em uma simples racionalização. Da putrefação ao esqueleto. Do esqueleto ao pó. Do pó ao nada.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Menino de Realengo

O Menino de Realengo sempre foi um rapaz triste e desde cedo sofreu com a exclusão da sociedade. Introspectivo, vivia às margens das frivolidades púberes de seus colegas de escola. Não participava das atividades, não ia lá na frente resolver problemas no quadro. Na chamada, sua voz quase inaudível era sempre substituída por algum gracejo debochado de um espírito de porco pré-adolescente. Era açoitado sem açoite, pisoteado sem pé, e sem entender o porquê de tudo aquilo.

O Menino de Realengo foi crescendo. Crescendo dentro de sua alma também estava o ódio que sentia de tudo e de todos. Depois da morte de sua única amiga, sua mãe, perdeu completamente o rumo. Cada vez mais fechado, foi se tornando uma efígie encostada em um canto qualquer da sala de aula ou de outros lugares os quais costumava freqüentar. Não conversava com ninguém, não brigava com ninguém, não beijava ninguém. Era um zero sempre à esquerda da esquerda de qualquer atividade que reunisse os jovens do bairro.

De repente o Menino de Realengo sumiu. Depois de algumas semanas sua ausência foi notada por um sacana qualquer. Onde está aquele bundão? Aquele bicha? Sua insignificância diante dos outros jovens do bairro foi notada por aqueles que gostavam de humilhá-lo para se sentirem melhor. Depois de uma ou duas semanas, acabaram por esquecê-lo de vez. Deve ter morrido ou virado mulher, diziam.

Mas o Menino de Realengo não estava morto. Em seu quarto, na frente de seu mais fiel amigo, pesquisava na rede alguma coisa para dar sentido a sua vida de Zé ninguém. Por meses se estagnou ante o computador. Perdeu aniversários de familiares e até a sua formatura não compareceu. Esses meses se tornaram anos. Dois, três ou quatro, nem sabia mais em que ano estava. O pessoal acreditava que tinha se mudado. Os únicos seres de carne e osso que mantinha contato eram sua tia e um primo que também o maltratava e que moravam com ele.

Nesse tempo enclausurado em seu auto-exílio virtual, o Menino de Realengo finalmente tinha encontrado algo que o chamou a atenção. Foi um autodidata e começou a seguir vários e vários blogs e sites que se referiam ao tema. Sua aparência estava diferente. Cabelos compridos e barba por fazer, estava imitando alguém que aprendeu a admirar pelo monitor de seu PC. Seu espírito parecia mais leve, e até cumprimentava os parentes dentro de casa.

O Menino de Realengo tinha um plano. Primeiro foi à escola onde estudou. Lá maquinou qual seria o melhor local para agir. Havia falado com a diretora do colégio e proposto algo a ela e foi aceito. Depois comprou um novo instrumento para executar seu plano. Era de segunda mão e de origem duvidosa, mas e daí? Seria o dia de sua redenção. Mudaria seu destino no mesmo local onde foi execrado por toda sua infância e adolescência.

Naquela manhã o Menino de Realengo acordou cedo. Colocou uma bolsa grande nas costas e saiu sem falar com ninguém. Ficou por quase duas horas encostado em uma árvore de frente a escola. Não desistiria ali. Entrou com permissão da diretora. Caminhou vagarosamente em direção ao refeitório onde se encontrava quase todo o contingente do colégio. Entrou, colocou a bolsa no chão. O fato chamou atenção de muitos. O Menino de Realengo abriu a bolsa e tirou uma Giovaninni surrada e começou a tocar.

Naquele momento estava executando sua vingança contra todos. Todos que o chamara de ninguém, que duvidaram de sua capacidade e o fizeram acreditar que aquela sentença era verdadeira. O Menino de Realengo tocava para espantar os demônios e para sentir o que é estar sendo observado e admirado. Aprendeu com aquele ato que a gente é o que acredita ser.

Naquele momento o Menino de Realengo acreditava ser um músico respeitado, ou mais do que isso, acreditava ser um ser humano. E por mais que tenha recebido vaias de alguns, outros aplaudiram. Só aí ele percebeu que o mundo sempre será feito de bons e maus, e aprendendo a se colocar no meio termo deste maniqueísmo sócio-cultural é que viveremos e sobreviveremos até o fim de tudo.

Mas, infelizmente, nem todos os Meninos de Realengo conseguem achar esse meio termo.

Dedicado à família das crianças mortas no massacre de Realengo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Messi Cristina Barcelona

E lá se foi Cristina. Deixou sua querida Rosário para descobrir os encantos de Barcelona. Ia ao encontro de sua prima de segundo grau, que não conhecia pessoalmente, apenas pelo Facebook. O convite veio depois de muito papo, onde Clara lhe contou sobre a maravilha que era viver na cidade catalã, como se apaixonou pelo jornalismo e pelo fantástico time de futebol local.

Esse assunto, por sinal, era o único nos quais seus pensamentos não conciliavam. Assim como sua prima, Cristina também era apaixonada por jornalismo, que pretendia começar a estudar no próximo ano, e adorava futebol. Mas para ela, o melhor time do mundo era o Real Madrid, e o melhor jogador, Cristiano Ronaldo. Por algum motivo odiava Messi e ignorava seus lances esplêndidos. Por mais que Clara lhe interrogasse, os motivos sempre soavam banais e sem sentido.

Chegou ao saguão do aeroporto, ansiosa. Clara já a estava esperando com um largo sorriso que combinava com seus olhos cor-de-mar. Se abraçaram como se não se conhecessem (se bem que no mundo virtual ninguém conhece o outro de verdade) e se olharam com o marejar propício a qualquer encontro. No caminho a prima mostrava a cidade para a recém-chegada, que parecia estar entorpecida pela límpida imagem que via pela janela do carro.Depois de dois dias na cidade, Cristina já havia conhecido a maior parte das belezas que a cidade catalã poderia oferecer.

De contente passava a triste, quando se lembrava que em dois dias teria de ir embora. Mas antes, sua prima tinha lhe preparado uma surpresa. Ingressos para uma partida de futebol, mas não qualquer uma, era uma candidata a jogo do ano, a semifinal da Liga dos Campeões da Europa. O Real Madrid enfrentaria o Barcelona, seria um tira teima entre as duas equipes, ou mais que isso, entre Messi e Cristiano Ronaldo.

Os olhos de Cristina brilhavam. Não acreditava que estava a alguns metros do Santiago Bernabéu. Conheceria seu grande ídolo, o megastar Cristiano Ronaldo. Clara a desafiava. Dizia que Messi era melhor, mais decisivo. A prima insistia em odiar o pequeno conterrâneo. O estádio se enchia. Depois da euforia inicial, a jovem fitava seu olhar no gramado, e de onde estavam tinham uma visão privilegiada. Clara vez ou outra a importunava e tentava saber o motivo de sua quietude. Com uma voz amarga, de repente Cristina começou a falar.

Revelou para a prima que era amiga de infância de Lio (era como ela chamava Messi) e que esse também gostava muito dela. Eram vizinhos, e sempre quando o Pulga não estava a correr atrás de uma bola, os dois sempre estavam juntos. Assistiam aos jogos do campeonato argentino pela TV, por isso a paixão da moça pelo esporte, e até arriscava um "driblinho”, que ele sempre vencia. Mesmo com os treinos nas categorias de base do Rosário, o amigo se fazia presente. Mas ele se foi para Barcelona. E o resto da história todo mundo já sabe.

A declaração de Cristina foi interrompida pelo apito inicial. O jogo truncado proposto pelo time de José Mourinho enfeava o espetáculo. Clara se corroia. "Retranqueiro", gritava ao treinador merengue a uns 10 metros a sua frente. Cristina seguia Messi por onde ele fosse. Suas lembranças vinham à tona, vez ou outra, fazendo com que imaginasse os dois infantes correndo pelo bairro onde foram criados. Quando terminou o primeiro tempo, Clara começou um discurso apaziguador, dizia que era por falta de tempo que ele não havia tentado o contato e blá, blá, blá. Mas a jovem argentina estava irredutível. Como você esqueceria sua melhor amiga? Perguntava-se enquanto continuava a ignorar a prima.

A raiva era pura e simples mágoa. Depois de famoso, o craque voltou à cidade natal, visitou parentes, mas não ela. Por que o esquecimento? Queria ela ter a oportunidade de falar tudo o que tinha pra falar. Ao menos um telefone de contato. Ao menos adicioná-lo no Facebook. Clara ouviu tudo e nem percebeu que o segundo tempo já estava em andamento. As palavras de Cristina a enternecia, não sabia o que dizer. Continuaram a acompanhar o jogo em silêncio. Talvez as duas únicas pessoas no estádio madrilenho sem emitir algum som.

A partida se encaminhava para um empate modorrento e sem gols. O clima já havia ficado quente depois da expulsão do zagueiro Pepe, do Real. Mas, depois de um lance pela direita, Messi, o protagonista do jogo e da história de Cristina, fez uma a zero. Clara quebrou o silêncio. Esperneou, gritou, xingou. Pediu desculpas para a prima, mas continuou a berrar junto com a pequena porção de barcelonistas que estavam presentes. Cristina admirava a figura de seu amigo comemorando, rindo, sendo glorificado, mas mesmo assim enxergava a mesma pessoa. Alguma coisa havia acontecido para ele não ter me procurado, pensava.

Entretanto, a noite ainda não tinha acabado na capital espanhola. Messi recebeu de Sergio, driblou três jogadores do time merengue e fez um dos gols mais bonitos da história da Liga dos Campeões. Saiu como um louco. Quando se aproximou de sua torcida, na euforia daquele momento eterno, fixou o olhar. Em uma fração de segundos, em meio a abraços, berros e empurrões o jovem gênio enxergou sua amiga. Cristina estava petrificada. Enquanto Clara pulava e abraça alguém que estava ao seu lado, sua prima vivia aquele instante. Em uma fração de segundos, toda a mágoa passou e povoava sua mente apenas a alegria do triunfo de seu amigo. Quando Messi voltou ao seu campo, a moça parecia em outro mundo. Seus olhos brilhavam e seus lábios já esboçavam o sorriso oculto. A felicidade voltara ao coração da jovem argentina.

O jogo terminou. Todos torcedores catalães levantavam com a enorme alegria de ter vencido o maior rival em seus domínios, mas Cristina não. Continuava ali, sentada, olhando atentamente para o gramado, como se esperando um sinal. Clara a olhou. Deu um sorriso bonachão de quem comprovara sua profecia. Nesse momento, a estudante de jornalismo, assim como a prima, se estagnou. Messi se aproximou o máximo que pode, e apontado o indicador para sua amiga de infância, lhe atirou a camisa. Ele havia se lembrado dela, e na dez que envergou durante a partida estavam anotados números de telefone.

Na viagem de volta, em meio a agitação dos torcedores barcelonistas, Cristina se mantinha em silêncio. Assim continuou o resto da noite, limitando-se apenas ao "si" e "no". No dia seguinte acordou cedo. Clara conduzia o carro até o aeroporto com corpo e alma de ressaca. Antes do embarque, a espanhola se limitou a dizer um até breve. Sabia que as poucas palavras da prima significavam uma felicidade absoluta. No dia seguinte, ao abrir sua página no Facebook, Clara abriu um largo e emocionado sorriso. Cristina havia mudado alguns dados. Agora, sua melhor amiga era sua prima. Sua viagem inesquecível, à Catalunha. E o seu maior ídolo, Messi. E claro, lhe contou tudo o que havia conversado com seu grande amigo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Admirável Jornalismo novo

No mundo digital, os parametros do jornalismo se tornaram maiores em termos de produção e distribuição de informação. O que muitos julgam como uma hecatombe na qualidade do processo, o doutor em jornalismo e professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Elias Machado, em sua tese “O ciberespaço como fonte para os jornalistas” , mostra que mesmo com seus problemas, a web pode auxiliar o profissional, desde que utilizado de forma correta. O principal suporte oferecido pelas redes telemáticas que geralmente são utilizados pelos jornalistas são os dados numéricos, ou seja, os índices quantitativos e gráficos. Neste caso este auxilio digital instaura um banco de dados virtual no qual é possível checar ou comparar informações recolhidas por quaisquer fontes. Em contrapartida, a difusão de uma quantidade ilimitada de material pode comprometer a confiabilidade. O jornalista afirma que “A estrutura descentralizada do ciberespaço complica o trabalho de apuração dos jornalistas nas redes devido a multiplicação das fontes sem tradição”. Mesmo assim, o uso dessa ferramenta é cada vez mais presentes nas redações. Essa convergencia de informações implica em uma inversão no modo de se fazer jornalismo. A materia-prima que originava uma pauta poderia conter apenas uma frase ou comentária de uma pessoa ou autoridade, cabia ao repórter buscar algo a mais que pudesse o auxiliar e complementar seu material para assim conceber uma reportágem, o que tornava a tarefa mais trabalhosa. No jornalismo digital, as ferramentas permitem que o jornalista se prepare para a reportagem em menos tempo e com muito mais informações adicionais. Porém, nem tudo é tão simples. A rede é livre para que todos possam se tornar difusores de todos os tipos de informação. Em sites de relacionamentos e blogs o indivíduo é livre para escrever o que bem entender com seu próprio ponto de vista, podendo ser ou não real o que está postado. O bom profissional deve ter fontes virtuais confiáveis, pois toda responsabilidade do que escrever será somente sua. Essa situação, evidencia a necessidade de criar leis para o auxilio dos profissionais, incluindo essas fontes digitais como responsáveis em casos de ações judiciais. Sobre isso Elias Machado afirma que “… a participação do usuário enquanto fonte ou coloborador revela a necessidade deuma atualização dos códigos de ética profissional com a definição dos direitos e deveres dos usuários como fontes”. Contudo, o que mais preocupa o meio jornalistico é o futuro. A possível substituição de repórteres convencionais pelas fontes digitais causa um certo medo entre os profissionais. O jornalismo pode se limitar apenas a um editor, que vasculhará a web atrás dos produtores de notícias e receberá tudo em seu notebook, organizando e passando à diagramação e publicação. Porém isso tudo pode ser adaptado a um novo sistema, sem danos ou perdas à profissão, basta aceitar que existe esse jornalismo digital, mas nunca deixar a boa e velha apuração presencial desaparecer.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Há seis anos

Lá estava ela. Linda como sempre com seu sorriso que refletia os brincos de ouro-de-tolo de suas amigas. Eu, parado com cara de idiota, só conseguia pensar em uma coisa:"Que diabos essa menina viu em mim?". Olhava para meus amigos só para ver a reação deles quando ela chegasse e me beijasse. Sua bela jaquetinha branca combinava com seu claro sorriso e complementava o brilho de seus olhos. Meu coração batia descompassado. Não poderia demonstrar a minha insegurança e ansiedade. Não queria que pensasse que era um frouxo que se entrega a uma garota logo com um dia de namoro. Queria manter minha panca, mas acima de tudo não queria decepcioná-la. Me senti réu e juri em um julgamento íntimo. Seria mesmo digno de moça tão bela e adorável? Os segundos se arrastavam e quanto mais ela se aproximava, mais a acusação me setenciava. Uma branca namorando um negro? De tão nervoso cheguei a pensar bobagem. Se ela não se importava com a quantidade de melanina que tinha em minha pele, por que eu iria me importar? Chegou! Me disse um "oi" tão macio quão uma almofada de pluma de ganso. O beijo! Uma intensa viagem de mim em mim. Era como se todo aquele torpor tivesse desaparecido. Só restara uma solene melodia da qual jamais esquecerei, mas nunca conseguirei reproduzir. Quando dei por mim, estava tão perdido quanto o barbudo de Paris, Texas. Por vários minutos não falei, não sorri, apenas admirei sua linda boca, seu sorriso suave e seu jeito singular de ser. O amor! Só ele é capaz de deixar uma pessoa dessa forma. Já não sei e nem quero saber como é mais viver sem ele. Há 6 anos que vivo nessa catarse emocional. Há 6 anos que descobri o que é ser feliz.