domingo, 1 de dezembro de 2013

A primeira vez ninguém esquece


Ah! A primeira vez. Pode parecer clichê, frase feita que sai naturalmente, mas mesmo piegas, é a mais pura verdade. Dia desses estava me lembrando da minha, há 9 anos atrás. Sim, já estava bem atrasado em relação a alguns colegas. Inventava que já havia acontecido, que era maravilhoso, coisa e tal. A verdade é que só ficava na imaginação. Quebrava o galho com a TV, me ajudou muitas vezes tarde da noite, supria minha necessidade. Mas a verdade é que ainda não tinha chegado lá, e morria de inveja de meus colegas contando de suas experiências maravilhosas. Torcia o nariz, ficava aborrecido, desdenhando e mentindo. Mas por dentro me corroia de vontade. Mas me entendam, na roça não era fácil conseguir uma oportunidade, lá sequer tinha lugar para conseguir o que eu queria.

Eis que surge a grande oportunidade. Estava no ensino médio, e lá me sentia o tal. Mesmo sem nunca ter experimentado, a TV já me dava conteúdo para discutir sobre o assunto, até com certa autoridade. E foi em uma excursão para Juiz de Fora organizada por um de meus professores foi que surgiu minha grande oportunidade. Era o dia, iria ser a primeira vez, ninguém iria atrapalhar, já que estava marcado meu encontro com ela. E olha que estava na presença de gente que não era de meu convívio, uma turma diferente da minha, mas não poderia perder a oportunidade e encarei mesmo assim. Quando cheguei no lugar que iria me encontrar com ela senti um arrepio que me subiu pela espinha e pousou sobre meus olhos. Sentado, esperando o encontro que mudaria minha vida não consegui seque fazer um lanche, coisa que sempre faço atualmente.

Eis que ela apareceu, iluminou meus olhos ao ponto de escorrer uma solitária lágrima no canto dos olhos, ou seria emoção mesmo? Só sei que fiquei o mais perto possível dela. Queria vê-la, ouvi-la, sentir aquela experiência nova como se fosse a última. Passado o nervosismo inicial, comecei a apreciá-la de forma mais segura, crítica. Percebi que tudo o que já havia aprendido na TV naquele momento já estava me ajudando a compreender tudo o que se passava. Seu nome era Olga, e para te falar a verdade, não foi lá grande coisa, mas não era de se jogar fora. Ela vai estar sempre presente nas minhas lembranças.


Sim, por que a primeira vez ninguém esquece, e quando saí do cinema aquele dia, tinha a certeza que não seria a última vez que a sétima arte estaria presente em minha vida através daquela tela gigantesca. Foi paixão à primeira vista e que jamais esquecerei, até o último dia da minha vida. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eu precisava dizer que Te amo


Bom, era aquele o momento. Não poderia passar. Cresci em uma comunidade provinciana, cá para nós, roça mesmo. Acostumei desde cedo às truculências de uma vida difícil, sempre batalhando para ter, comer ou fazer algo que preenchesse o mínimo possível de conforto físico ou intelectual. Não por culpa de minha família. Meu pai, João para meus familiares, Crioulo para os conhecidos, Pai para eu e meus irmãos. Aquele sujeito pacato, engraçado, cheio dos bordões famosos. Nunca deixou que nada nos faltasse e nem à sua mãe, que tanto amava. Sim, estava a lembrar disso naquela tarde ensolarada do dia dos pais de 2005, no Hospital João Felício. Tentava disfarça a terrível tristeza de vê-lo definhar, logo ele, que sempre foi um exemplo de vitalidade. Trabalhava a semana inteira como carpinteiro em obras e ainda lhe sobrava energia para uma capina, um conserto qualquer que nossa humilde casa necessitava, e sempre necessitava.

Com o passar do tempo eu e meu irmão encontrávamos tempo para ajudá-lo. Quando se afastou do trabalho devido a um problema de hipertensão, tive a oportunidade de conviver mais com ele, assistimos a quase todos os jogos da Copa-2002 juntos, até os péssimos. Silenciosamente ouvia meus comentários sobre os jogos, o que deu-lhe lenha pra afirmar para os amigos que eu seria um grande comentarista esportivo. Mas, naquele tempo juntos o vilão estava lá, o cigarro, persona non grata, porém, sempre estava lá. Naquele momento estávamos a esperar a enfermeira que o levaria para mais um exame, não sabia o que dizer, meu assunto já acabara a mais de dez minutos. Vez ou outra ia a um quarto próximo ver como andava o jogo do Flamengo, time pelo qual torceu fervorosamente e teve a incrível sorte de comemorar o título mundial junto com seu aniversário em 13 de dezembro de 81. Mas naquele perdia para o Goiás por 2 a 0. Derrota que parecia rondar aquele domingo dos pais.

Quando o médico lhe proibiu de beber, cumpriu a ordem a risca, ordem difícil, pois, apesar de não ser nenhum bebum, adorava “se alegrar” nas noites de sábado. Chegava alegre, brincava comigo, com meus irmãos e minha mãe. Agora havia parado. Já fazia um ano. Conseguiu uma boa pensão neste tempo afastado do trabalho. Tínhamos uma vida boa. Iria se aposentar e aí sim, poderia aproveitar a vida. Mas veio uma gripe, que virou pneumonia, que virou câncer. Ali deitado naquela cama fria, mais magro do que de costume, com aquele tubo que ajudava a respirar. Olhava para a janela, não sei o que pensava, talvez se arrependesse de alguma coisa. Não sei.

O que sabia era que o momento havia chegado. Em alguns instantes a enfermeira viria, eu teria de ir embora já que não poderia acompanhá-lo no exame e o horário de visitas acabara. A mulher entrou, ele sentou na cama, olhou-me com uma confiança de despedida, “Vou sair dessa”. Não disse nada, apenas o abracei. “Sim, vai sim.” Só o que consegui dizer. Naquela cadeira de rodas me olhou pela última vez, dei um passo para mais perto, passei a mão em seu rosto. Foi se embora. Foi a última vez que vi meu pai vivo. Carrego o fardo de não ter lhe dito “te amo”, não sei por que não disse. Naquela noite, ainda dia dos pais, ele se foi. Saiu daquela como havia me prometido. E, de certa forma, passado o luto pesado, foi o melhor que lhe aconteceu naquelas circunstâncias. Era um homem bom demais para sofrer daquela maneira.


E eu, continuei minha vida, sendo o melhor que ele me criou para ser, me formei jornalista e quem sabe um dia passe a comentarista como disse que eu seria? Mas ainda carrego um pouco de dor, que vez ou outra me incomoda. Eu precisava dizer que te amo. Mas se isso servir. TE AMO PAI. A Martha Medeiros escreveu certa vez que as pessoas só morrem de verdade quando a última pessoa que lembra delas morrem, e se for este meu destino, o de te manter vivo até o último instante de minha vida, assim será.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

À Dois


Acordar e ver aquela pessoa ao seu. Perceber que sua vida já não é mais a mesma. Agora há um caminho que se divide, preocupações que se somam, responsabilidades que se multiplicam, porém não existem subtrações. São comunhões, respeito mútuo, e decisões a serem tomadas não com permissões, mas com conversas. Levantar e olhar para a cama e sentir aquele calor no peito, a sensação de segurança. Ter a consciência de que tem alguém que o espera em casa, ou que você está esperando. Tarefas compartilhadas, alegrias e frustrações também. Saber que o ser humano é constituído de bons e maus momentos, e entender o mau humor e aproveitar o sorriso fácil. Lavar o rosto na pia do banheiro e ver duas escovas de dente, sentir certo estranhamento, perceber que a ficha ainda não caiu. É saber a hora de ouvir desabafos e se não tiver uma única palavra, que um abraço sincero esteja à disposição. Problemas vão surgir, momentos difíceis também, mas o amor e companheirismo deixarão, com certeza, tudo mais simples de ser enfrentado. Voltar para o quarto e ficar observando enquanto aquela pessoa dorme. Involuntariamente sorrir e sentir vontade de proteger, amparar e amar cada minuto da existência dela. Saber abrir mão de certas coisas e não abrir de outras. Ter a noção de que aquilo que te incomoda, talvez incomode também a outra pessoa. Saber, acima de tudo, viver, e ver o quanto estar junto daquela pessoa dormindo ao seu lado é especial. Viver uma vida como duas, claro, até que o descendente chegue, pois aí será viver uma como três, quatro.....

Dedicado à minha esposa e grande amor Bárbara. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À flor da pele



E decidiu provar para todos que estavam errados. Não era a pessoa estressada que diziam e nem dava chiliques. Ora bolas. Sua esposa sempre o repreendendo, o que são alguns pratos? Aproveitou o dia de folga dado pelo seu patrão, “para relaxar”, disse com aquela cara de bosta que o deixava ainda mais antipático. Queria ver dar aquele sorriso de canto de boca se lhe desse um ..... Pronto, parei. Não preciso ficar irritado. Pegou a vassoura e resolveu limpar a casa. Maldita mesa, devia ter comprado uma maior. Pronto, tudo limpo, ou quase, tá certo, tava uma merda. Deu de ombros, não iria se estressar. Sentou-se para ver TV. O enfado posou lhe aos olhos, nada de bom nos canais abertos, este filme já vi, pra quê pago esta porra de assinatura se os melhores filmes passam de madrugada? Colocou nos esportes. Segunda-feira, só tem futebol americano, inferno, futebol jogado com a mão não é futebol. Americanos estúpidos. Desligou a TV. Comeu o resto do almoço de domingo, bebeu um refrigerante quase sem gás. Vídeo-game, quanto tempo. Nível médio, perdeu. Nível fácil, perdeu. Meteu o dedo no botão e desligou. Respirou fundo, tô destreinado. Sua mulher ligou, está tudo bem? Claro, o que daria errado? Pegou seu computador, problemas com o sinal wi-fi. Diabos. Pegou o MP3, sem bateria, onde está a droga do carregador? Não achou. O estômago começou a queimar, foi o refrigerante. Vou jogar bola com o pessoal. Abriu a janela e havia começado a chover. Vou voltar para a TV, deitou no sofá, a energia acabou. Começou a tremer, pago caro e fica acabando a toa. Achou o Banco Imobiliário, jogando sozinho, sou o vermelho, quebrou, mas não aceitou. Jogou os dados, um caiu debaixo da mesa, abaixou-se, bateu com a cabeça. Inferno, por que não compramos uma maior. Faltava luz, não achou velas nem isqueiro. O estômago estava insuportável. Fechou os olhos, respirou fundo. Foda-se. Deu uma braçada na mesa, jogou tudo no chão. Pegou uma cadeira e atirou pela janela. Sentiu-se bem. Olá amor, recebeu a esposa com um belo sorriso.