terça-feira, 28 de junho de 2011

Messi Cristina Barcelona

E lá se foi Cristina. Deixou sua querida Rosário para descobrir os encantos de Barcelona. Ia ao encontro de sua prima de segundo grau, que não conhecia pessoalmente, apenas pelo Facebook. O convite veio depois de muito papo, onde Clara lhe contou sobre a maravilha que era viver na cidade catalã, como se apaixonou pelo jornalismo e pelo fantástico time de futebol local.

Esse assunto, por sinal, era o único nos quais seus pensamentos não conciliavam. Assim como sua prima, Cristina também era apaixonada por jornalismo, que pretendia começar a estudar no próximo ano, e adorava futebol. Mas para ela, o melhor time do mundo era o Real Madrid, e o melhor jogador, Cristiano Ronaldo. Por algum motivo odiava Messi e ignorava seus lances esplêndidos. Por mais que Clara lhe interrogasse, os motivos sempre soavam banais e sem sentido.

Chegou ao saguão do aeroporto, ansiosa. Clara já a estava esperando com um largo sorriso que combinava com seus olhos cor-de-mar. Se abraçaram como se não se conhecessem (se bem que no mundo virtual ninguém conhece o outro de verdade) e se olharam com o marejar propício a qualquer encontro. No caminho a prima mostrava a cidade para a recém-chegada, que parecia estar entorpecida pela límpida imagem que via pela janela do carro.Depois de dois dias na cidade, Cristina já havia conhecido a maior parte das belezas que a cidade catalã poderia oferecer.

De contente passava a triste, quando se lembrava que em dois dias teria de ir embora. Mas antes, sua prima tinha lhe preparado uma surpresa. Ingressos para uma partida de futebol, mas não qualquer uma, era uma candidata a jogo do ano, a semifinal da Liga dos Campeões da Europa. O Real Madrid enfrentaria o Barcelona, seria um tira teima entre as duas equipes, ou mais que isso, entre Messi e Cristiano Ronaldo.

Os olhos de Cristina brilhavam. Não acreditava que estava a alguns metros do Santiago Bernabéu. Conheceria seu grande ídolo, o megastar Cristiano Ronaldo. Clara a desafiava. Dizia que Messi era melhor, mais decisivo. A prima insistia em odiar o pequeno conterrâneo. O estádio se enchia. Depois da euforia inicial, a jovem fitava seu olhar no gramado, e de onde estavam tinham uma visão privilegiada. Clara vez ou outra a importunava e tentava saber o motivo de sua quietude. Com uma voz amarga, de repente Cristina começou a falar.

Revelou para a prima que era amiga de infância de Lio (era como ela chamava Messi) e que esse também gostava muito dela. Eram vizinhos, e sempre quando o Pulga não estava a correr atrás de uma bola, os dois sempre estavam juntos. Assistiam aos jogos do campeonato argentino pela TV, por isso a paixão da moça pelo esporte, e até arriscava um "driblinho”, que ele sempre vencia. Mesmo com os treinos nas categorias de base do Rosário, o amigo se fazia presente. Mas ele se foi para Barcelona. E o resto da história todo mundo já sabe.

A declaração de Cristina foi interrompida pelo apito inicial. O jogo truncado proposto pelo time de José Mourinho enfeava o espetáculo. Clara se corroia. "Retranqueiro", gritava ao treinador merengue a uns 10 metros a sua frente. Cristina seguia Messi por onde ele fosse. Suas lembranças vinham à tona, vez ou outra, fazendo com que imaginasse os dois infantes correndo pelo bairro onde foram criados. Quando terminou o primeiro tempo, Clara começou um discurso apaziguador, dizia que era por falta de tempo que ele não havia tentado o contato e blá, blá, blá. Mas a jovem argentina estava irredutível. Como você esqueceria sua melhor amiga? Perguntava-se enquanto continuava a ignorar a prima.

A raiva era pura e simples mágoa. Depois de famoso, o craque voltou à cidade natal, visitou parentes, mas não ela. Por que o esquecimento? Queria ela ter a oportunidade de falar tudo o que tinha pra falar. Ao menos um telefone de contato. Ao menos adicioná-lo no Facebook. Clara ouviu tudo e nem percebeu que o segundo tempo já estava em andamento. As palavras de Cristina a enternecia, não sabia o que dizer. Continuaram a acompanhar o jogo em silêncio. Talvez as duas únicas pessoas no estádio madrilenho sem emitir algum som.

A partida se encaminhava para um empate modorrento e sem gols. O clima já havia ficado quente depois da expulsão do zagueiro Pepe, do Real. Mas, depois de um lance pela direita, Messi, o protagonista do jogo e da história de Cristina, fez uma a zero. Clara quebrou o silêncio. Esperneou, gritou, xingou. Pediu desculpas para a prima, mas continuou a berrar junto com a pequena porção de barcelonistas que estavam presentes. Cristina admirava a figura de seu amigo comemorando, rindo, sendo glorificado, mas mesmo assim enxergava a mesma pessoa. Alguma coisa havia acontecido para ele não ter me procurado, pensava.

Entretanto, a noite ainda não tinha acabado na capital espanhola. Messi recebeu de Sergio, driblou três jogadores do time merengue e fez um dos gols mais bonitos da história da Liga dos Campeões. Saiu como um louco. Quando se aproximou de sua torcida, na euforia daquele momento eterno, fixou o olhar. Em uma fração de segundos, em meio a abraços, berros e empurrões o jovem gênio enxergou sua amiga. Cristina estava petrificada. Enquanto Clara pulava e abraça alguém que estava ao seu lado, sua prima vivia aquele instante. Em uma fração de segundos, toda a mágoa passou e povoava sua mente apenas a alegria do triunfo de seu amigo. Quando Messi voltou ao seu campo, a moça parecia em outro mundo. Seus olhos brilhavam e seus lábios já esboçavam o sorriso oculto. A felicidade voltara ao coração da jovem argentina.

O jogo terminou. Todos torcedores catalães levantavam com a enorme alegria de ter vencido o maior rival em seus domínios, mas Cristina não. Continuava ali, sentada, olhando atentamente para o gramado, como se esperando um sinal. Clara a olhou. Deu um sorriso bonachão de quem comprovara sua profecia. Nesse momento, a estudante de jornalismo, assim como a prima, se estagnou. Messi se aproximou o máximo que pode, e apontado o indicador para sua amiga de infância, lhe atirou a camisa. Ele havia se lembrado dela, e na dez que envergou durante a partida estavam anotados números de telefone.

Na viagem de volta, em meio a agitação dos torcedores barcelonistas, Cristina se mantinha em silêncio. Assim continuou o resto da noite, limitando-se apenas ao "si" e "no". No dia seguinte acordou cedo. Clara conduzia o carro até o aeroporto com corpo e alma de ressaca. Antes do embarque, a espanhola se limitou a dizer um até breve. Sabia que as poucas palavras da prima significavam uma felicidade absoluta. No dia seguinte, ao abrir sua página no Facebook, Clara abriu um largo e emocionado sorriso. Cristina havia mudado alguns dados. Agora, sua melhor amiga era sua prima. Sua viagem inesquecível, à Catalunha. E o seu maior ídolo, Messi. E claro, lhe contou tudo o que havia conversado com seu grande amigo.

Um comentário: