quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Driblando o destino


Família indiana morando na Inglaterra tem problemas com a filha que decide quebrar as regras e se tornar uma jogadora de futebol

Esta bem que poderia ser mais uma manchete de jornal que frequentemente lemos nos jornais de todo mundo a cada dia. Mas o trecho acima se refere à uma sinopse cinematográfica de um tema cada vez mais onipresente na sociedade mundial. Meninas que se aventuram no mundo de um esporte que, se não fosse por elas, já teria perdido todo seu encanto dentro e fora das quatro linhas. Enquanto eles deixam de ser desportistas para se tornarem astros milionários (os chamados pop stars da bola), elas seguem na sua saga enfrentando duros adversários, como uma teimosa falta de reconhecimento e um preconceito sem nenhuma explicação plausível.

Quando uma menina decide ser uma atleta, de certo não encontra nenhuma relutância cabal por parte da família. Afinal de contas, esporte é vida, e na maioria das vezes uma solução mais que saudável de se moldar um ser humano. No entanto quando a opção escolhida é o esporte mais praticado no mundo, este conceito ganha contornos shakespearianos por parte destas mesmas famílias. Ao invés do apoio incondicional, o que encontram é uma defesa impenetrável de argumentos infundados, que nem mesmo o melhor jogador do mundo pode ultrapassar. O preconceito é universal.

O paradigma imposto por uma sociedade ortodoxa impõe aos pais e familiares certos conceitos difíceis de ser superados. Ver sua filha quebrar as regras desta sociedade é como deixá-la entrar numa dividida sem bola com consequências quase irreversíveis para todos os lados. Tanto para o Bem quanto para o Mal. Este deturpado sentimento de proteção se apoia sob justificativas nada racionais. Desde criança somos forçados a acreditar que meninas e meninos têm lados diferentes. Na área de um, o outro não pode entrar. Carrinhos e bolas para eles, bonecas e panelinhas para elas. Crescemos dentro deste contexto que, de tão enfatizado ao longo de nossos anos, se torna quase que um dogma. Se uma menina ousasse chegar perto de uma bola de futebol, logo era taxada de persona non grata e então rechaçada pelos coleguinhas. Isto quando não recebiam certos apelidos pejorativos como o de “Maria-homem” ou coisa pior.

E a situação piorava consideravelmente quando a mesma mostrava ter uma habilidade bem mais apreciável com a bola nos pés do que eles. Como consequência desta ousadia, eram punidas “exemplarmente” pelos familiares. Em casa cansavam de ouvir, sentir na pele, a famigerada frase: “futebol é coisa pra homem. Mulher só toca na bola se for de vôlei.” Batia-se o martelo. Futebol para eles e vôlei para elas. Ora, e quanto à seleção de Bernardinho, que nos trouxe e nos trás tantas conquistas memoráveis? Seguindo, por esta conclusão, será que cairemos numa discussão tão bizarra a respeito da orientação sexual de cada atleta? Hoje isto é algo que, francamente, beira o ridículo!

É por isto que tais conceitos, analisados friamente ridicularizam quem faz disso uma filosofia. Por que razões ainda relutam em reconhecer o espaço das mulheres no esporte mais apaixonante do planeta? Cada vez que ouvimos seus lamentáveis argumentos diante desta inacreditável questão, somos arremessados num campo minado de ignorância. Imagine só o que aconteceria se os pais de Mauren Maggi, Daiane dos Santos, Rainha Hortência e Paula, Juliana e Larissa, Fofão e Cia. tivessem que lutar contra estes mesmos inimigos irracionais que o de nossas meninas de chuteiras? Quantos e quantos talentos seriam chutados para fora! Imaginem então se nossa Rainha Marta e seus familiares tivessem sucumbido a esta injustificável situação?

A protagonista da obra cinematográfica citada no primeiro parágrafo, poderia perfeitamente ter sido inspirada em todas as brasileiras que injustamente tendem a lutar uma batalha desnecessária, que na maioria das vezes começa dentro da própria casa. A jovem indiana do filme nutria uma forte paixão e admiração pelo esporte mais apaixonante do planeta. Determinada, desafiou as tradições de seu país, que tradicionalmente marginaliza a mulher em todos os campos. Driblou um casamento arranjado, e marcou um golaço ao decidir correr atrás de seu sonho na América. Ser como as garotas que, assim como ela, não se deixam levar pelas dificuldades e se entregam com paixão a este esporte embora essencialmente machista.

O mesmo fazem nossas representantes do Brasil. Para elas, o que falta de conquistas e reconhecimento, sobra em coragem e determinação. Afinal de contas, competir contra equipes muito mais bem preparadas do que elas, já é, por si só, um grande desafio. Quando este desafio se reforça com o descaso de seu próprio país, o jogo termina e elas perdem de goleada. Os algozes são, em sua grande maioria, a própria família que representa a pátria de instituições esportivas que não lhes dão o mínimo de suporte necessário para poderem representar com mais força e dignidade as cores de nossa bandeira. Enquanto eles, os marmanjos, se esbaldam no banquete de cifras e festas, elas, esperam ansiosas, pelas sobras que caem da mesa de seus “donos”, os cartolas do futebol.

Um dia, quem sabe, talvez. De tanto driblarem seus destinos, elas consigam finalmente marcar o gol de placa que tanto esperamos para o Bem do esporte. Unidos venceremos os times do descaso e do preconceito. Nem que para isso haja uma prorrogação.

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