segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Epístola ao Pai




Olá Pai, quanto tempo. Parece que foi ontem que você partiu e ainda sinto a dor daquela noite. Como estão as coisas? Espero que estejam boas, pois aqui tudo anda tudo bem. Desde que se foi muitas coisas mudaram, boas e ruins, felizes e tristes. Hoje sou um homem independente, pago minhas contas, estudo e trabalho. Teria orgulho de ver que o menino inseguro que o senhor deixou aos dezenove, se tornou um adulto equilibrado e responsável. Faço faculdade de jornalismo, e quem diria, estou para me tornar o comentarista que dizia para todos que me tornaria. Uma pena não estar aqui para a formatura.

Por falar em se formar, o Éder se formou, e pela segunda vez. Nem acredito que tenha conseguido tal feito. Não duvidei de sua inteligência e capacidade, isso nunca. Mas para quem abriu mão de estudar para ajudar a família nos momentos mais difíceis, isso foi algo espetacular. Apesar de todos os defeitos, sua força de vontade e persistência é admirável.

A Flávia terminou o ensino médio, como um dia você falou que ela deveria de fazer. Mas ainda não teve como continuar. Trabalha, tem suas responsabilidades e ama cinema assim como eu. Sempre está ao lado da mãe, evitando as trapalhadas, ou ajudando nelas. Sempre esteve ao meu lado também, ouviu meus lamentos e meus textos. Sempre atenciosa. Torço para que continue os estudos, sempre foi a mais inteligente de nós.


A mãe, bom, nisso você nem acreditaria se não fosse eu a te falar. Parou de fumar, administra as despesas, tem lá seus momentos de instabilidade, pois se não seria a dona Neuza, mas se transformou em uma mulher forte. Leva a vida saudavelmente, e mesmo com sua acidez, é uma pessoa de um coração enorme que não cria empecilhos para ajudar alguém que precise.

Ah, Pai! Como gostaria que conhecesse a Bárbara. Minha noiva e mulher de minha vida. Tudo o que sou e conquistei, devo muito a ela. Logo após sua partida, ela preencheu uma lacuna em meu coração. Mesmo diante de meus defeitos, e que não são poucos, não desistiu de mim. Até hoje, meu temperamento, as vezes intempestivo e egoísta, me deixa com medo de que um dia possa se cansar de mim. Mas acredito que ficaremos juntos, teremos filhos e teremos uma boa vida.

Tenho algumas coisas tristes a dizer também. A vovó se foi. Quando você partiu, o baque foi grande para ela. Nunca mais foi a mesma e padeceu junto com a casa, que hoje nem é sombra da residência viva e feliz que de tempos em tempos estava cheia de gente. É triste ver como está cinzenta e feia agora. O Nego também se foi. Mas esse eu não me preocupo. Foi feliz enquanto esteve entre nós e foi tratado como uma pessoa, assim como você fazia. Não era mais o mesmo depois de sua partida, porém nunca nos abandonou. Agora deve estar ao seu lado, todo sem vergonha balançando o rabo.

Queria que não tivesse ido. Mas não sou o senhor do tempo e do espaço. Talvez se tivesse ficado não teria me tornado descrente em Deus, entretanto também não tivesse crescido como pessoa e conquistar o que conquistei. Não vou mais lamentar, somente relembrar. Só quero que saiba que estou feliz, a mãe está bem e a Flávia também. O Éder vai se ajeitar e todos viverão felizes até quando puderem.

Terei filhos e um bom emprego. Uma esposa que amo e que me ama. Se estiver mesmo em um lugar em que possamos nos encontrar, então espero um dia estar aí. Mas terá de esperar, ficarei aqui ainda por um bom tempo. Enquanto isso torça por mim. Te amo muito meu Pai. Até.

2 comentários:

  1. Que lindo, Paulo. Fiquei emocionada. Parabéns.

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  2. Meu amor fico feliz por ter preenchido este espaço em seu coração e te ajudado a passar por este momento tão dificil, conte comigo sempre. te amo mto.

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