sábado, 17 de setembro de 2011

Um dia em setembro

Aquele dia acordei estranho. Senti a cabeça pesada, como se tivesse tomado todas na noite anterior. O sol não brilhava. O fosco daquela manhã parecia o prenuncio de uma tempestade que não caía há algumas semanas. O cheiro da brisa poeirenta irritava ainda mais a minha renite. O som dos pássaros estava baixo, como se pressentissem algo de cruel naquele dia. Nem o delicioso café da mamãe parecia tão saboroso quanto antes.

Ao caminhar pela rua de chão batido do lugarejo onde morava, percebi que quase ninguém estava nela. A dona Catarina varria o terreiro como de costume, mas não cantarolava suas velhas canções. O Seu Dico apenas abanou a cabeça para me cumprimentar do portão, o que não era de seu feitio, adorava as pilhérias. A casa de meu amigo, o segundo melhor lugar do mundo para mim naquela época, estava silenciosa. Concluí que alguma coisa estava acontecendo.

Na sala, Adriana estava atônita frente a TV. Perguntei pelo irmão dela, mas não houve resposta. Sentei-me ao seu lado e verifiquei o motivo de tanta concentração. A tela mostrava algumas legendas em meio a fumaça. Perguntei qual filme era e recebi um sorriso irônico como resposta. Ela não disse nada. Percebi então que não se tratava de um filme de Spielberg, e sim de algo sério que acontecera. Aquela imagem jamais sairia da minha memória.

Já havia passado alguns minutos, não sei bem quantos. A fumaça e o caos na TV aumentaram. Comentaristas narravam o fato e chamavam repórteres por todos os cantos do planeta. Mal pude perceber que a plateia na sala naquele momento já triplicara. Era como o último capitulo da novela das oito. Nenhuma palavra, só suspiros e cabeças desaprovadoras. Nem me dei conta que o horário de me preparar para ir para aula já tinha chegado.

No ônibus não se falava de outra coisa. Jovens adolescentes apresentando teorias desenvolvidas pela TV julgavam o tal homenzinho árabe de nome ainda difícil de lembrar e dizer. Alguns prestavam atenção, outros ignoravam o fato. Tinha aqueles que se sensibilizaram, e também os que acharam “bem feito”. Eu não achava nada. Só analisava as bobagens postas em discussão. Estranhamente não me intrometia no debate.

Na escola, o professor abandonou a aritmética e continuou as teses iniciadas pela TV. A diretora interrompeu a aula para convocar todos os alunos e professores ao pátio. Falou sobre o acontecido pela manhã, pediu ajuda de outros integrantes do corpo docente em tentar explicar a importância daquele fato para a história. Profetizam que nossa vida poderia mudar para sempre e que devíamos nos preparar para mais uma guerra, e por aí foi.

O frio fim de tarde, esfriou também o animo de todos no ônibus de volta para casa. Os professores tinham conseguido assustar a maioria. Só os engraçadinhos continuavam naquela insistente alegria forçada. Por fim, desistiram. Aqueles 20 minutos que separam a escola de minha casa foram os mais terríveis em todo o tempo em que estudei. Suplicava em minha mente, que o tempo acelerasse e que minha casa aparecesse diante de meus olhos.

Em casa, ninguém falou do assunto. O máximo foi um “meu deus do céu” de minha mãe. Minha irmã assistia a mais um boletim da TV sobre o ocorrido. Preferi ir para o meu quarto e ler um livro da Agatha Christie que tinha começado a ler no dia anterior. Os únicos ruídos que vinham de dentro da casa pertenciam ao apresentador do noticiário e os gritos de minha mão com o gato malhado que miava desesperadamente na cozinha.

Comi e deitei-me para continuar a leitura. Dormi e tive pesadelos intermináveis com o caos daquela manhã. Acordei por várias vezes durante a noite. Não entendia como algo que aconteceu tão longe mexeu tanto comigo e com todos ao meu redor. Seria o poder da TV em exagerar que apavorou a todos? Só sei que na manhã seguinte tudo parece ter voltado ao normal. Acordei bem e o dia estava claro e sonoro. Na rua, o burburinho dos vizinhos me alegrava. Tudo voltou ao normal.

Vi um menininho que rodopiava sem para no meio da rua. Pensei que ele era o único que não havia sofrido com a calamidade do dia anterior, mas sofreria com suas consequências. Sentei-me no meio-fio ao lado do meu portão e comecei a pensar que todo aquele horror pode ter sido o pontapé inicial para o fim do mundo. Hoje, dez anos depois, percebo que o fim do mundo é subjetivo. As coisas não estão acabando, mais sim mudando. Não sei se para o bem ou para o mal, e o quanto isso vai me afetar. Só sei que o mundo nunca mais foi o mesmo depois daquele dia cinza de setembro.

Um comentário:

  1. eu tava matando escola esse dia só pra ver desenho. coisa feia, né? lembro que vi o avião batendo na torre. aquele dia foi surreal.

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